quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Paralelismo

Ângela Margarida Torres de Araujo 
Leônidas nas Termópilas-de Jacques Louis David ( 1814).

 É de conhecimento público a asserção – “a história se repete”. Repete-se em fatos, em ocorrências, na vida de homens e mulheres construtores de nações, os quais dignificam o solo pátrio ou naqueles notáveis pela maldade com que conduziram o povo e governaram os cidadãos. Repete-se em situações similares, nada obstante, ocorridas em séculos e épocas distintas. Daí, ousarmos afirmar que, o mundo é um só bloco e o homem, uma criatura universal.
Buscando nos livros, esses incontestes guardiões da vida da humanidade, ou mais precisamente lendo Plutarco, cuja seara de biógrafo tinha como método o Paralelismo, dando à sua obra o título “Vidas Paralelas”, em um pequeno intervalo na minha leitura, avancei no tempo, chegando à contemporaneidade do meu Sergipe, nos idos de 1906. Encontrei um nome e um homem, sergipano de Divina Pastora, em cujo momento esta Casa de Cultura celebra o centenário da sua pugna política contra as forças oligárquicas que dominavam o Estado de Sergipe, que culminou com a sua morte, alvejado por uma carabina, em praça pública. Continuei divagando pelos meandros da História e retorno à Antiguidade Clássica, agora subindo as montanhas das Termópilas, os “portões quentes” por conta das fontes térmicas da região, onde aquartelou-se o espartano Leônidas, em 480 a.C.
Fausto Cardoso ( 1864-1906)
Atrevi-me, então, compor esta página, trazendo à lume episódios similares das vidas do rei Leônidas e do tribuno Fausto, ambos príncipes do povo.
Nascidos na casta dos nobres, Leônidas descendia da cepa semi-divina de Hércules e Fausto da aristocracia açucareira do nordeste brasileiro, ambos pósteros da linhagem de militares e políticos, servidos “pelo braço escravo”.
Infantes ainda foram retirados, o primeiro, das planícies da Lacônia, banhadas pelo rio Eurota e defendidas naturalmente por uma cordilheira de montanhas, que se perfilava tal qual exércitos em contorno sinuoso, onde o menino filho de Anaxandrides buscava a companhia da natureza; e o segundo, garoto do Engenho São Félix, da Mata da Boacica, “ pulmão verde” da Cotinguiba, que guardava sob as velhas Uruçucas, a refrescante fonte mineral, da qual todos eram abastecidos, a fim de enfrentarem os rigores da educação espartana e as lições acadêmicas do Padre Francisco Vieira. Casaram-se ambos na tradição mais aristocrática da Grécia Antiga e do Engenho Cassange.
Frente às circunstâncias, encontramos Leônidas da Lacedemônia, fora do lar, no Desfiladeiro das Termópilas, com os seus trezentos, corpo de elite da guarda pessoal do rei, longe da esposa Gorgó, da família e do trono, para impedir o avanço das tropas persas estrangeiras. Também longe do lar, que ficou no Rio de Janeiro, encontra-se em Aracaju, o líder popular Fausto Cardoso, distante da consorte Maria Pastora, dos filhos e do Parlamento Federal, com a finalidade de afastar o grupo oligarca da vida política de Sergipe e impedir a marcha de Firmino Rego. Que igual destino tiveram essas mulheres, que prantearam os seus maridos, sem o direito e vê-los, sequer, agonizantes!
No fervor dos embates, Leônidas e Fausto enviaram mensagens aos seus adversários. Ao exigir do soberano grego a deposição das armas, o persa Xerxes teve como resposta, a lacônica e valente asseveração: “Venham pegá-las”.  Com igual destemor, o nosso Fausto, ao ser intimado a deixar o palácio às autoridades depostas, numa indômita coragem, verbalizou: ‘O palácio é dos sergipanos...”.
Ambos os líderes foram aconselhados.  O heleno, a esperar reforços que chegariam ao final do festival ao deus Apolo; o sergipano, a não se lançar naquela empresa suicida de enfrentar a fúria da soldadesca indisciplinada.
Gládio, lanças, espadas e flechas foram vitimando os jovens guerreiros lacedemônios, que protegiam com os seus corpos, o corpo do seu soberano, “até conseguirem retirar do campo o corpo do valoroso comandante”. Seus amigos fiéis, Polinikes e Derkilides, arrastaram o rei sem vida, distanciando-o dos Imortais da Pérsia.
A exemplo dos 300 de Esparta, oferecendo o seu corpo como escudo, outro apologista da liberdade, ainda que um civil, homem simples saveirista, Nicolau Nascimento, protege o seu líder e é mortalmente ferido, tombando assim, a primeira vítima da tragédia. A seguir, alvejado por um tiro traiçoeiro e atrevido, engatilhado pelo alferes Franco, tomba Fausto, à porta do palácio, o seu campo de luta e é conduzido pelos braços do seu filho, Humberto Cardoso, protegido pelos amigos e sectários.
Eram ambos jovens, quadragenários, tornaram-se símbolos do heroísmo e da doação. Em vida, tiveram a fidelidade e admiração dos seus concidadãos. Na morte, mereceram o respeito e a veneração daqueles que viam em seus líderes, o perfil da honra, da dignidade e do patriotismo. E assim, particulares lhes ergueram monumentos.  A fim de perpetuarem a sua história e homenagearem o rei Leônidas, trezentos espartanos emigrados para os Estados Unidos, cotizaram-se e ergueram-lhe uma coluna laudatória. Foi igualmente de iniciativa particular, a ideia de um monumento ao célebre tribuno e valoroso político. – “A FAUSTO CARDOSO – o povo”. Ambos foram vingados. O rei, pelo sobrinho Pausânias. O tribuno, pelo filho Humberto.
Ambos, Leônidas e Fausto, foram vítimas da insensatez das facções políticas; das Cidades-Estados gregas que não dispensaram ajuda, insinuando que o exército persa ainda se encontrava longe das terras dos helenos. E a obstinação de mentes voltadas para o poder, numa ambição desmedida de perpetuarem-se nele. A primeira vítima, mártir do atalho de Anopéia e da ínfima ação do desventurado Efialtes; a segunda, acreditando que o seu discurso e as suas proposituras de não violências, impressionariam os janízaros, mercenários pagos par preservar o continuísmo dos oligarcas. Para ambos, paladinos da casta de homens que, segundo Nietzsche, já nasceram póstumos, o hino do coração dos civis que ainda cantam a Canção de Simônides: “Gloriosa é a sua sorte. O seu monumento fúnebre é um altar”.