quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Queixas de um ancião

Josefina Cardoso Braz

Senhor, há quase dois mil anos comemoramos o teu nascimento, e na simplicidade da manjedoura que te serviu de berço, no desamparo de Maria pressionada pelas dores do parto, na aflição de José sem arrimo, sem hospitalidade, nós te bendizemos.
Estava escrito; e na magia da noite pura, num recanto do Oriente nasceste Rei, Senhor, o Prometido, embora pobre, abandonado, em anonimato, iluminado apenas pela “estrela guia”, sinal da tua realeza e marcado pela procura dos Magos que profetizaram a grande chegada. Cumpriste a missão de Salvador, Redentor e morreste pela humanidade. Porém, Senhor, eu humildemente me proponho lembrar-te; não envelheceste, não sofreste as agruras, a tristeza, a discriminação, as dores e a solidão no passo-a-passo da caminhada que leva à ancianidade. Mas eu, Senhor, eu envelheci e senti as transformações do meu corpo que dantes moço e esbelto é hoje refletido nos espelhos da vida deformado, aniquilado.
A imagem da face que outrora expressiva e sorridente punha em escanteio as desventuras, e agora máscara macerada pelo tempo, contestando a verdade existente apenas em antigos retratos. Minhas mãos trêmulas corroídas pela artrose são trapos denunciadores da incapacidade, da inutilidade. Meu grito se esvai pelo universo sem retorno, e eu só, absolutamente só, embora na multidão.
Ouço-te, neste momento, como a dizer: - “Que queres tu? Abolir da vida o envelhecer? Abreviar o “grande sono” e dizimar no florescer da idade o gênero humano? As rugas, deformações, enfermidades, são atributos que pagas por viver muito. Nada te valeu à pena? Que dizes da experiência que adquiristes através do dia-a-dia, contribuição que legas às atuais e futuras gerações, pelo exemplo do teu trabalho, pela tenacidade das tuas decisões e pela força do teu idealismo? Não levas em conta a alegria de contemplar, embora na imobilidade da tua cadeira, o rosto sorridente do netinho e vislumbrar os fios prateados enfeitando a expressão no rosto do teu filho? Criatura, faz um retrospecto da tua trajetória nesse mundo: afasta as dores, as lágrimas, os espinhos e lembra que o teu caminho foi também pontilhado de flores e rastros luminoso de felicidade! Chegar à velhice é desfrutar da oportunidade de semear e colher!”.
Baixo então minha cabeça tristemente e murmuro: - Perdoa-me, então, Senhor! Pelo mistério da tua passagem por esse mundo, pela inacessível consubstanciação do Deus Uno e Trino, pela fé que se perpetuou nos corações até ao mais empedernidos, eu te imploro, Divino Infante, perdoa-me! Perdoa-me por essas divagações que te podem magoar. Sendo eu, partícula da humanidade que quiseste redimir, sou passível de erro, ingratidão, incompreensão. Mas te confesso, Senhor, hoje, quando em mim o crepúsculo é mais longo e mais intenso que a aurora, no limite da vida e na decadência desse existir, é penoso aceitar. É triste e repito como já disse alguém: É TRISTE A GENTE VELAR O SEU PRÓPRIO CADÁVER E MORRER ANTES DA MORTE CHEGAR. (19.10.1995).