quinta-feira, 5 de abril de 2012

A QUARESMA E A PÁSCOA DA MINHA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA


Igreja Santo Amaro das Brotas-Sergipe

Maria Lígia Madureira Pina

Nos anos dourados da minha infância e adolescência a observância da Quaresma e da Semana Santa era muito rigorosa. A abstenção de carne durante às sextas-feiras era obrigatória. A Semana Santa era realmente sagrada. Desde a Quarta-feira de Trevas até a manhã do Sábado de Aleluia fazia-se várias abstinências e penitências. Falava-se apenas o indispensável. Jejuava-se na sexta-feira; jejum absoluto, inclusive de água. A Igreja estava de luto pela morte do Redentor. Além dos paramentos roxos, cobria-se de roxo todas as imagens. Não havia canto durante os ofícios, nem se cantava em casa. As rádios só tocavam músicas clássicas. No interior, então, era uma compunção geral, como se a paixão de Jesus estivesse acontecendo naquela hora. Lembro que em Santo Amaro das Brotas, Senhor dos Passos, Nossa Senhora das Dores, Jesus Crucificado, Senhor Morto, Pilatos, Cláudia e Herodes, entravam em cena. As imagens eram colocadas no centro da Igreja. Durante o ano elas eram guardadas em um quarto, reservado, exceto o Crucificado.
Eu, sendo criança, tinha a maior curiosidade por essas imagens. Logo que entrava na Igreja pedia a minha tia Angecília para vê-las. E ela: Para quê? Para ficar com medo? E, eu tinha medo. As imagens pareciam vivas, o sangue parecia real. Tinha medo. Mesmo assim queria vê-las. E ia agarrada à saia da minha tia. Ah! Também tinha medo da matraca. A festa da Aleluia era no sábado, às 10 horas da manhã. O que era um contra senso porque Jesus ainda estava morto. O ofício durava, umas duas horas. A missa era concelebrada e movimentada. Os padres andavam de um lado para outro do altar... Um deitava-se de bruço no chão... e a crendice popular achava que eles estavam procurando a Aleluia. Se não achassem o mundo se acabaria. As pessoas ficavam tensas, aguardando o “achamento”. Não se entendia nada porque a missa era celebrada em latim e os padres ficavam de costas para a assembleia. Só no Dominum Vobiscum é que se voltavam para os fies que respondiam: “ Et cum espiritu tuo”. Lá pelo meio-dia surgia a Aleluia. Alegria geral. Estavam todos salvos. O harmônio tocava, o coro cantava Aleluia. Os sinos vibravam, os trens apitavam, os carros buzinavam, os tambores e clarins ressoavam...    

Que festança! No almoço muita comida gostosa regada a leite de coco e azeite de dendê. À noite, em algumas casas havia a queima do Judas. Minhas primas Aurina e Lourdes eram hábeis na confecção do Judas. Durante a noite a moçada se reunia para queimar o boneco traidor, mas antes era lido o testamento do infeliz, com ofertas às pessoas presentes. A quem ele deixava um objeto tinha de se dizer porque ele fazia aquilo... Aí estava a graça.

Na madrugada do domingo celebrava-se a missa da Ressurreição e em seguida a procissão do Ressuscitado. Muitos cantos alegres, muitos flores para celebrar a vitória da VIDA SOBRE A MORTE.

Com o passar do tempo, principalmente com as reformas do Concílio Vaticano II, tudo se modificou.  Os atos em língua nacional passaram a ser entendidos por todos os fiéis. As regras do jejum foram abrandadas.  O horário da Missa da Aleluia que passou a ser às onze horas da noite, hoje celebra-se às 19:30 horas pelo medo dos bandidos. Aproveitemos bem o nosso tempo, porque, como diz a sentença de um sábio francês: “Le temps perdue, ne retrouve pás”.  (O tempo perdido, não se recupera).  ☼ Semana da Páscoa 2012.


FELIZ PÁSCOA PARA VOCÊ E TODA SUA FAMÍLIA