quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

"Quem ajuda corrompe, quem ensina liberta"

"Quem ajuda corrompe, quem ensina liberta"


Yvone Mendonça de Souza

Tela de Jean Simeon Chardin - A jovem professora (1737) 
No coração dessa máxima de um grande pensador está a chave e a essência da importância do professor. Podemos usar o silogismo: ”O professor ensina, portanto liberta”.
Refletir sobre o papel do professor no tempo e no espaço e através da história, propicia a quem o faz, momentos de indizível gratificação interior, particularmente quando quem fala desenvolveu uma caminhada de 46 anos de efetivo exercício no magistério, enfrentando com paciência e denodo as mutações e embates de quase cinco décadas. Tudo realizando com comprometimento, entusiasmo e amor. E asseguramos que não foi tarefa fácil. Nestes quase 50 anos de vivência no magistério, acompanhamos as múltiplas concepções sobre o papel do professor e a função da Educação em nosso país. O que é finalmente o professor? Semanticamente, professor é aquele que professa ou ensina uma ciência, um arte, uma técnica, uma disciplina. Aquele que professa publicamente as verdades religiosas e ainda o que exerce uma cátedra (ou cadeira).
E o que é a educação? Do latim educatione, ato ou efeito de educar. Processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, visando à sua melhor integração individual e social.
Como inferimos, o valor semântico carregado de significados importantes de ambas a palavra demonstra uma verdadeira comunhão e reciprocidade de objetivos. Sim. Porque não se pode dissociar professor de educação. Professor e educação interagem no processo de transformação do homem e da sociedade.
Com os apelos evolutivos do atual século e o início de milênio cresce de forma preponderante o papel do professor. Enquanto no passado ele dispunha apenas do livro e da palavra, depois, do rádio e televisão, hoje ele tem em seu poder um volume incalculável de informações através da internet e da cibernética, constituindo uma engrenagem desafiadora de conhecimentos que lhe chega tão veloz e tão célere como o pensamento. Este fato o faz repensar o seu papel de professor e educador. Daí a preocupação dos atuais governos de modernizar as escolas, atualizar seus professores, investindo alto na computação, acompanhando os avanços tecnológicos. Desta forma, insere o alunado no mundo cibernético, propiciando-lhe novas perspectivas educativas consentâneas com o mundo atual.
Porém, em que pese todos os avanços, toda essa parafernália da modernidade, ninguém pode subestimar o relevante papel do professor e educador, seu saber, sua ciência, seu exemplo e sua orientação.
“O elemento mais importante na qualificação de qualquer professor é justamente aquilo que ele é em si. Todos reconhecemos que um só exemplo vale por mil conselhos. Aquilo que você é troveja tão alto que não posso ouvir o que você diz” J.M. Price.
Considerando o papel das máquinas na evolução da sociedade e na educação do homem, concluímos que elas são importantes, sim. Contudo, jamais substituirão o mestre, o educador. Pois tudo o que seremos na vida e no mundo, qualquer que seja a profissão que venhamos a exercer ou abraçar, devemos, em grande parte, às lições que recebemos nas escolas e que nos foram ministradas pelo mestre cuja única riqueza é cumprir seu dever, sendo o ensino para muitos, um verdadeiro sacerdócio.
Parece poético e até utópico falar nos dias atuais, em magistério como sacerdócio. No entanto quem é que não escuta e assiste através da televisão, de vez em quando, exemplos vivos de professores, nestes vários rincões do nosso Brasil, em regiões inóspitas, de professoras dedicadas, que em situações as mais precárias e difíceis ministram aulas em escolas sem bebedouros, sem merenda escolar, enfrentando distâncias consideráveis para adquirir e levar água a seus alunos, procurando saciar a sede física com seus próprios recursos, mas sobretudo querendo concomitantemente matar a sede do saber e do aprender ao levar às crianças sonhos e esperanças.
Quem foi que não se encantou e não se inebriou com a leitura da famosa obra, best-seller, “A última grande lição” de Mitch Alboom, traduzindo de forma emocionante a trajetória dos últimos dias de um mestre que morreu ensinando, cercado de alguns discípulos, só por amor ao sublime ofício de ensinar e educar?
Nesta semana cujo centro de atenções é a figura do professor, gostaríamos de homenagear neste momento, um educador cuja vida foi um exemplo marcante de ações na Educação como uma fonte indiscutível de libertação do homem e da sociedade. Referimo-nos ao imortal Paulo Freire. Enquanto viveu, nunca deixou de sonhar. Sonhar com um Brasil liberto e desenvolvido através da Educação – ao dizer –“Ai de nós educadores se deixarmos de sonhar sonhos impossíveis”.
Que nos inspiremos em Paulo Freire que se encontra em outra dimensão, mas que nos legou a força do seu grande exemplo.
Que nos inspiremos em Pestalozzi e D. Bosco que viram no fazer pedagógico um ato de amor.
Enfim, que nos inspiremos também no exemplo de Cristo, o mestre dos mestres, da mesma forma que fez George Palmar ao perceber a atuação de Cristo como mestre, ao expressar-se: “Creio tanto no ensino que se necessário fosse pagaria pelo privilégio de ser mestre em vez de receber algo por ensinar”.