5-Maria da Conceição Melo Costa


(26/05/1904 - 16/07/1970)

Cecinha Melo –  Nasceu na cidade de Itabaiana, mudando-se depois, ainda muito criança, para Aracaju, onde viveu todos os anos de sua vida. Era filha do desembargador João da Silva Melo e de dona Francisca de Almeida Melo. Fez o curso primário no Colégio Santana, da renomada mestra Quintina Diniz de Oliveira Ribeiro. Formou-se pela Escola Normal, aos dezesseis anos de idade. Começou a vida profissional no Grêmio Escolar do Dr. Evangelino, a convite do mesmo. Era professora de declamação. Casou-se com o senhor João Costa e da união nasceram três filhos: José Guerton, Maria Laís e Darcilo. Mãe carinhosa, exemplar, acompanhava os estudos dos filhos e dos amigos dos filhos, ensinando, incentivando, aparando as arestas, esmirando as dificuldades. Orientava os filhos na escolha da profissão, sem contudo forçar suas personalidades.
No governo do Dr. Eronides Ferreira de Carvalho foi convidada a ensinar Estatística na Escola Normal. Procurou entrar em contato com a disciplina. Foi a Salvador, onde procurou um especialista na matéria. Não aceitou a cadeira. Aquela disciplina nada tinha a ver com a intelectual, a humanista que era Cecinha Melo. Logo depois surgiu a oportunidade: vagou a cadeira de Literatura da Escola Normal. Aceitou o novo convite. Nomeada para Literatura, assumiu também a cadeira de Educação Moral e Cívica, como complemento da tarefa. E foi a grande mestra, a grande educadora que todas quantas tivemos a felicidade de sermos suas alunas, conhecemos. Palavra fluente, personalidade viva, suas aulas eram em extremo atraentes. Ficávamos atentas, olhos nos seus olhos, bebendo as lições de vida que emanavam do seu saber. Ensinava-nos de tudo. Desde o conhecimento dos grandes escritores, poetas, artistas, até as coisas práticas da vida em sociedade: como sentar-se, como falar, como rir (nunca gargalhar), como combinar cores, roupas e acessórios, como enfrentar situações difíceis. Suas lições, até hoje estão impressas no meu cérebro, no meu coração. Lembro-me que “certa feita” (como ela sempre iniciava um assunto), ela fora passar uns tempos numa fazenda, em Gararu, para se restabelecer de um parto difícil, seguido de febre puerperal. Foi em companhia de parentes, proprietários da fazenda. Uma manhã, quando estavam à mesa do café, a empregada entrou esbaforida, apavorada, dizendo que Lampião e o seu grupo estavam às portas. A criatura toda tremia de pavor. Trancaram-na num quarto. Enquanto isto, os capangas apelavam à porta. O anfitrião foi recebê-los, convidou-os para o café da manhã e ela e a prima, pálidas de medo, mas disfarçaram bem, conversaram, serviram a mesa e ainda tiraram fotografias dos bandidos. E ela nos afirmava que, naquele momento, diante de homens tão sediciosos ela “se reportava à capelinha de D. Bosco e era ele que ela via, diante de, si, protegendo-a, encorajando-a com o seu sorriso manso, acolhedor”. O tema da aula era “A Coragem”, mas estava subentendida a Fé. Era assim a grande mestra, a amiga das alunas, mesmo sem grande aproximação. Conhecia-nos a todas: nossas qualidades, nossas limitações. Sentia satisfação e santo orgulho das nossas vitórias que eram suas. Lembro-me que após o exame oral, no meu último ano de Curso Normal, D. Cecinha foi ao meu encontro e me disse: “Jamais esquecerei esta sua prova. Você foi examinada por outro professor e foi brilhante, respondeu com segurança tudo que ele explorou; outros assuntos que não o do ponto sorteado. Estou muito feliz”. Mas Cecinha Melo não foi apenas mãe e mestra. Foi muito além. Foi uma benemérita da sociedade em que viveu: ela exerceu os seguintes cargos, não remunerados:
·                    1ª Secretária da Associação Sergipana dos Lázaros e Defesa Contra Lepra.
·                    Fundadora e primeira Presidente da Legião Feminina de Combate ao Câncer, à qual dedicou-se de corpo e alma, garantindo com festas, sorteios, quermesses e outras criatividades, a subsistência da Organização e os recursos necessários ao tratamento de indigentes, transporte para os doentes pobres do interior, campanhas educativas, o que está comprovado nos relatórios da Entidade, por ela redigidos e aprovados pelos membros da Associação, como o de 1965, do qual retiro os seguintes informes: “Campanha do Recibo de Luz, já pago, obrigação da Eletrobrás. Balaio de Primavera, no mês de setembro. Bingo – Tarde da Solidariedade. Bazar no Salão da Movelaria Chaperman. Jantar dançante no Iate Clube. Campanha Educativa pelo rádio, em horários da Câmara de Cultura, em convênio com o Condese. Palestras realizadas por médicos como Dr. Augusto Leite, Dr. José Augusto Barreto, Dr. Hugo Gurgel. Participação de Assistentes Sociais ligadas à Legião, em congressos nacionais, como Maria de Lourdes Mota.
Tudo isto e muito mais, Cecinha Melo e sua equipe (sua filha Laís, Hortência Carvalho, Leyda Regis e todos os outros membros da Legião) fizeram, o que era pouco, diante de suas necessidades, como afirma no relatório de 1965:

“Vivemos intranquilas ante o muito que ainda devemos realizar. Desejamos dar assistência aos irrecuperáveis, responder-lhes aos gemidos com a presença do enfermeiro em seus pobres lares, para fazer-lhe os curativos, dar-lhes algum conforto, levando-lhes nossa mensagem de afeto, de calor humano, de amizade”.

E, preocupada, lança a pergunta, entre angustiada e esperançosa: “Não seria possível organizar uma pequena enfermaria que os pudesse abrigar, como a que existe no Asilo da Penha, no Rio de janeiro?” E, dirigindo-se aos médicos: “Alertai-nos, orientai-nos que a Legião Feminina está pronta a cooperar convosco neste novo aspecto de trabalho”.
Cecinha Melo foi também:
·                    Sócia fundadora da Sociedade Artística de Sergipe – SCAS. Tesoureira da Sociedade Franco-brasileira: Aliança Francesa. 1ª Secretária do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, permanecendo no cargo por duas décadas.
·                    Pioneira do esporte feminino em Sergipe, ao lado de Cezartina e Leda Regis, Luisa Paes Guedes, Laudelina Teles e outras. Jogava basquete e vôlei, defendendo as cores álveo-azul do Cotinguiba.
Cecinha Melo era oradora eloquente, tendo demonstrado este pendor desde os tempos de estudante. Foi a oradora de sua turma de concludentes da Escola Normal, quando contava apenas dezesseis anos de idade, do qual reproduzo alguns períodos:

“E por que vibra assim a alma popular? Por que tão numerosa assistência corre pressurosa ao belo templo da instrução? É que nada, meus senhores, interessa e agita mais o povo do que as glórias intelectuais da geração que desponta, os louros legitimamente colhidos nas gloriosas lides do estudo e do trabalho. E agora, que nos vamos separar, empenhemos a nossa palavra de bem cumprir os nobres deveres do magistério, enobrecendo-os pela dedicação e pelo estudo e deixai-me poetizar com o pretexto deste juramento, a mágoa da separação:

Vamos, filhas do sol da liberdade
Lançar a gota quente da verdade
Nas almas das crianças.
Se é preciso banhar em luz a ideia,
De estrelas formulemos a epopeia
De sóis e de esperanças.

Como professora da Escola Normal, Cecinha Melo foi por duas vezes convidada a paraninfar as diplomandas: em 1943 e 1946. Estes discursos são tão atuais que poderiam ser pronunciados hoje.

“Ela (a infância) vos espera. Suas índoles, índoles incultas, qual deserto árido, onde medram daninhas ervas, hão de florir e reflorir em abundante seara, ao mágico contacto de vossas mãos de veludo. Empregai o método do amor, não vos esqueçais. Ele, somente ele despertará o que há de melhor no humano ser, pois a linguagem do coração é universal, todos a entendem e haveis de conseguir com o caudal da vossa bondade e a graça da vossa inteligência, o sorriso são e comunicativo nas faces dos vossos pequeninos educandos. Fazei que a criança estude o livro mirífico da natureza para que ela chegue a compreender “o grande poema épico que o dedo de Deus escreveu sobre as camadas da terra”.
Os exemplos tirados da crença religiosa, baseados no método do amor, serão na escola, o alicerce que sustentará a pátria brasileira a acordar do sono estéril de sua longa ignorância. Ensinai às crianças hábitos de capacidade no desenvolvimento dos seus deveres, ministrando-lhe perfeita instrução moral nas nascentes cristalinas das obras educativas, benéficas ao coração e à inteligência.
Sede, sobretudo educadoras, porque educar é função do professor”...

Observem quão atuais são os conselhos, dados às professorandas de 1943! E mais adiante:

“Estamos enormemente distanciados da Idade Média que via na mulher tão somente a mãe. Vivemos no século em que ela é a colaboradora preponderante na obra educativa, a que forma, no lar ou na escola, o cidadão de caráter, laborioso e honesto ou o soldado valoroso, denodado e instruído. Todavia, para que a educação e a instrução atinjam sua perfeita finalidade é mister que a professora possua qualidades essenciais ao desempenho de sua nobilitante missão, criando uma personalidade inconfundível, iluminada pela observância dos deveres de família, deveres sociais e dos deveres religiosos. A ilustre socióloga Maria Domenech de Canellas expôs este conceito em memorável discurso:

“A mulher concorre para o nível moral e o grau intelectual de um povo, porque ela forma a alma, estimula as aspirações e dá alento aos sentimentos dos seus filhos”.
E vós, depois da mãe, sois os primeiros artífices dessa oficina fundamental que é a escola primária, preparando a alma e a inteligência para os futuros reclamos da escola secundária.”

E mais adiante:

“Amai a criança para melhor entendê-la. O professor, penetrando a psique da criança prepara o cidadão, o indivíduo útil à sociedade, ampliando ou corrigindo as suas inclinações, aperfeiçoando-as mais e mais, lapidando, enfim, todas as arestas para a formação do caráter, porque “a escola é o prefácio da vida”, no dizer de Afrânio Peixoto. Necessário é, pois, auscultar com paciência e interesse as tendências da criança, a fim de melhor orientá-la nas suas predileções para assegurar eficientemente o seu destino.”

Lição mais bela, mais atual, mormente quando a mulher saiu do recesso do lar para cooperar com o homem nos mais diversos setores da economia. Cabe, portanto, à escola, mais que nunca, o dever de não só instruir, mas igualmente educar. É por isto que a educação chegou aos descaminhos em que se encontra. A escola relegou a sua função educativa e os pais, atarefados em suas funções, na luta pela sobrevivência, numa sociedade de consumo como a nossa, não encontram tempo para educar, para plasmar o caráter dos filhos. Cecinha Melo, com olhos no futuro mostra os caminhos a seguir. Admiradora de D. Bosco segue-lhe as pegadas, defendendo a Pedagogia do Amor.
E vejam o que Cecinha Melo diz no seu discurso às professorandas de 1946:

“Os que educam, vivem numa pugna constante e sem tréguas. Começam a lutar contra o erro e a ignorância, afastando tudo que lhes possa estorvar a obra talhada com a tenacidade do escultor a levantar do granito as formas mais admiráveis de beleza, semelhantes à vida; afastando tudo que lhes altere o plano elaborado no silêncio de sua modesta existência, quase sempre desconhecida, e executado, diariamente, com amor e abnegação; e vencendo os obstáculos, imensos das maldades e intolerâncias humanas terminam lutando até contra programas de ensino com suas múltiplas reformas, o mais das vezes incoerentes e impraticáveis pela extensão que se não ajusta, à precariedade do tempo, sobrecarregando artificialmente o cérebro dos alunos e fazendo da vida uma correria louca para a ineficiência, para o desânimo, para a incapacidade física, moral e intelectual dos incompetentes.
Nós, professores, precisamos sobretudo de tato para separarmos o joio do trigo que encontramos a medrar simultaneamente ao longo da estrada da vida, preservando a pureza dos nossos ideais das iniquidades que existem por toda a parte. Esta é uma das faces agras da profissão, com suas pesadas responsabilidades e seus inerentes reclamos.

E mais adiante:

“Dai às crianças noções de educação moral e cívica, desde a mais tenra idade, provocando no pequenino mundo de sua vivaz inteligência o interesse pelas belezas naturais que a cercam, despertando-lhes o amor por esta terra pequenina e simples onde nasceu, todavia indispensável à harmoniosa configuração e ao auspicioso destino dos Estados Unidos do Brasil.
Mostrai-lhe a terra e o céu, a natureza exuberante e o ruído da vida em movimento ao seu redor. Vendo com os próprios olhos tudo o que temos e de que modo o conseguimos, olhando as aves a entretecerem os ninhos, as colmeias recheadas de delicioso mel, o coqueiral de folhas reluzentes na dádiva dos frutos saborosos, observando as pirâmides de sal, simétrica e artisticamente levantadas pelo operário anônimo, a preparar com o suor de seu rosto e a energia dos seus músculos retesados a base econômica do País; olhando o céu abrasado pela canícula tropical, ou auriluzente de estrelas na escuridão dos minguantes, ela compreenderá que tudo isto lhes pertence, é seu, é nosso e devemos guardar estremecidamente, calorosamente, decididamente.
Acostumai-a a distinguir e a prezar o que possuímos, levando-a aos campos onde se cultivam o fumo e o algodão, onde os canaviais se elevam galgando as colinas ou se derramando pelos declives em aveludados tapetes de incomparável roupagem verde-cana; levando-a à roça, onde a charrua ou a enxada trabalham no amanho da terra para as opimas searas do feijão e da mandioca e a festejada messe de douradas espigas. Distinguirá, assim, os produtos deste país fertilíssimo, dotado de riquezas incalculáveis nas jazidas de minério de ferro para a produção do “melhor aço do mundo” e nos fecundos veios de petróleo a jorrarem, promissores, à prosperidade do Brasil.
A criança de hoje será o homem de amanhã, o pesquisador a indagar a causa dos que habitam a miséria e a ignorância nas choças fincadas à orla das estradas abandonadas, perdidas, porque intransitáveis... Compete ao Estado olhar de perto e positivamente, enfrentar dois grandes problemas que elevam o país no conceito universal: alfabetizar obrigatoriamente a criança e educar a mulher no sentido de que possa ela cooperar eficientemente no levantamento moral, físico e intelectual do povo. É assunto bastante discutido a influência exercida pela mulher na história dos povos; todavia, refiro-me à necessidade de preparar-se a mulher, isto é, a mãe e a professora, a quem cabe a grave responsabilidade de plasmar a alma e dirigir a razão dos futuros cidadãos da pátria...
O homem construiu impérios, criou civilizações e todas as suas obras têm desaparecido no transcorrer da História, porque nesses impérios e nessas civilizações faltava a ativa intervenção social da mulher... A mulher deve possuir uma educação sistematizada, de acordo com as necessidades atuais. Houve tempo, e é muito perto ainda, pois não há um século, não tinha a mulher o direito de ingressar numa carreira liberal, como a advocacia e a medicina, sem que corresse o risco de ser apupada e insultada publicamente. Isso aconteceu às duas altivas moças americanas, alunas distintas entre os expoentes masculinos, nos diferentes cursos preparatórios, ao ingressarem no primeiro hospital aberto ao ensino clínico da mulher. Os preconceitos estavam ainda muito arraigados contra a mulher liberada, instruída: contra a interferência nos trabalhos profissionais privativos do homem.
Talvez não estejamos longe da mulher do futuro, educada consoante as necessidades das sociedades modernas, consciente do valor da sua colaboração na obra social e cívica do país, em cujos setores diferentes o nível de sua educação baseada na moral cristã determinará a grandeza e felicidade da pátria.

E mais adiante, em último conselho, da última aula às professorandas de 1946, propugna pelo respeito à Língua Portuguesa, estimulando-as a bem falar e escrever o idioma pátrio:

“Propugnai pela pureza do nosso idioma, não vos deixando arrastar pelos que deturpam a linguagem, usando a gíria e abusando de estrangeirismos. Batei-vos em favor da nobreza e do esmero que fizeram e hão de fazer as obras-primas das letras nacionais.
Não queremos dizer que a língua não sofra modificações, no evolver dos tempos, não se vá enriquecendo mais e mais pelos vocábulos que vão surgindo, como aconteceu com a inclusão em nosso idioma de palavras indígenas e africanas, o que contribuiu para esta pronúncia doce e agradável, este português langoroso que levou Eça de Queiroz a dizer: “... no Brasil fala-se português com açúcar”.

Eis aí conselhos primorosos da mestra de todos os tempos, Cecinha Melo, e que muito bem podem ser aplicados nos dias atuais, quando, apesar de toda a abertura, a mulher ainda é discriminada nos salários, nos cargos públicos e em muitos outros segmentos da sociedade. Quando a língua pátria é ainda e cada vez mais ultrajada, quando as pessoas se formam, se titulam e não sabem redigir, quando até escritores fazem questão de transcrever nos seus romances o que de mais vulgar existe no linguajar das camadas mais incultas da sociedade. A preocupação com o senso de amor à pátria e de honestidade, hoje tão desgastados, preocupação com o conhecimento do País e de suas possibilidades econômicas, o desvelo pela preservação da natureza, muito antes do despertar ecológico atual.
Cecinha Melo foi a primeira mulher a discursar no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, convidada pelo então presidente da instituição, Dr. José Calasans Brandão da Silva. Comemorava-se o aniversário da entidade e o retrato do primeiro presidente, desembargador João Dantas da Silva Melo (pai de D. Cecinha), seria aposto naquele recinto. E em brilhante discurso-poema, emocionado, ela faz a apologia do genitor, dizendo:

“Contemporânea do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, crescendo e me desenvolvendo à sua sombra, conheço um por um os seus fundadores, os intelectuais que por aqui passaram, tombados alguns para sempre pela morte, ausentes outros e poucos ainda presentes neste momento, fiéis às suas tradições.
Hoje, que se celebra o trigésimo quarto aniversário de sua fundação, trazendo à baila, em insulsa palestra, traços biográficos de meu pai, um dos seus iniciadores e seu primeiro presidente, não vos venho apresentar uma vida de lances empolgantes, burilada com lampejos do gênio ou com o fascínio dos combatentes políticos, mas a vida serena e ordeira, simples e fabulosa que sabe à própria terra sergipana, às planícies dos tabuleiros capelenses em cuja terra nasceu, à simplicidade que toda se dá a conhecer sem reservas, pois que faltam abismos... É a vida do magistrado integro e modesto vivendo no remanso da sua tebaida – o lar e os livros – que eu exponho aos vossos ouvidos complacentes.
Amou o sertão com aquele sentimento brasileiríssimo que se avultou em Euclides da Cunha e vive magistralmente colorido em Catulo da Paixão Cearense, “o maior provençal dos tempos modernos”.
Não admitia que o sabiá, bardo das selvas brasileiras, cantasse senão nas frondes das quixabeiras ou nas árvores do joá selvático. Nos seus furtivos encontros com a musa dos aedos, parodiando Tobias ou Castro Alves, no íntimo convívio da família, dependurava os ninhos do “sofrê” nas candeias desabrochadas em flor, em casto e singelo ofertório às uruçás e mandaçaias silvestres; envolvia, no manto verde escuro da baunilha e da guabiraba, a cabeleira desgrenhada da mata a esconder juritis e pucaçus bravias.

Em seguida, fala da vida de estudante do seu pai e diz:

“Recordava sempre essa época romântica da sua vida. Era o tempo das serenatas, dos violões, dos estudantes na fase alegre e despreocupada da mocidade, cantando estrofes da Judia e a Leocádia, de Tobias, em noites de plenilúnio a desenhar escamas fulgentes no dorso do Capibaribe que tantos poetas inspirou.

Fala depois do convite que o pai recebeu para residir no Rio de Janeiro, logo após a formatura:

“Declinou, todavia, do tão honroso quanto sedutor oferecimento. Atraía-o o panorama sempre novo do pequenino Sergipe a acenar-lhe à distância, na brancura de seus horizontes sublinhados pelo verde esmaltado do coqueiral, entoando, no farfalhar perene de suas virentes palmas, hosanas de boas vindas aos filhos queridos que retornam ao lar. Sua terra amada!... Sua família!... Seus amigos!... E voltou a Sergipe, para não mais dele afastar-se”.

Conta, a seguir, a luta do seu pai para permanecer na comarca de Itabaiana. E assim se expressa:

“Por aqui se vê a obstinação em permanecer na velha cidade serrana que guardava ainda o calor da vida de Tobias Barreto que ali se fez poeta, segundo Sebrão Sobrinho, inspirado na beleza de suas filhas e nas aquarelas de admirável cor local. Aos ouvidos do novel promotor, teriam segredado visões que se volviam de cada canto da cidade, dos rorejos aurorais ou das sombras crepusculares, das alturas azuis nas estrias dos arrebóis ou dos mistérios da mata, almas aflitas, torturadas pela saudade do vate que ali cantara aos corações,

“nas horas em que o pranto é doce
de uma doçura a que ninguém resiste”,

ou cantava

“aos lírios cândidos
de sua dor o segredo”...

E continua na sua prosa poética:

“Explorou palmo a palmo os lugarejos do vasto município, qual missionário a espalhar, dadivoso, as ardências da sua sensibilidade cristã. Era fato comum regressar ao amanhecer, ao passo lento do cavalo, revestido daquela paciência que tanto o caracterizou, depois de uma noite de vigílias e labutas à cabeceira do tabaréu opilado, a tiritar de febres intermitentes, desamparado na sua penúria, com toda espécie de provações, ajoujado pela fatalidade”.

Em seguida:

“Possuindo o dom de exprimir-se de acordo com os circunstantes, empregava, quando em conversa com os sertanejos, o dialeto usado naquela região, pronunciando as palavras erroneamente, imprimindo o mesmo sotaque característico, como se fora um deles. Não é de estranhar que se tornasse o ídolo daquela gente sofredora e aflita que seguia à procura de “mezinhas” com que se curar, mesmo quando passou a residir em Aracaju. E quando isto acontecia procurava explicar ao tabaréu simplório que “a coisa aqui era diferente: serei preso, processado se receitar...”. Enviava-os, então, ao seu irmão médico, Dr. José Francisco da Silva Melo, depois de alguma cédula para o remédio e da sopa à sua mesa, sempre franca ao pobrezinho. Motivo porque, meus senhores, lhe falava tão de perto ao coração, a velha terra dos jaboticabais dulçurosos e dos laranjeirais em flor, embalsamando o ar. Era sempre com modulações de ternura e saudade na voz de inflexão grave e mansa que evocava Itabaiana da vetusta e lendária serra do “carneiro de ouro”, esfumada no cendal azul dos horizontes infinitos, de festões e tufos de cabrita a beijar-lhe a encosta; com seus riachos murmurosos e soluçantes a banhar-lhe os pés.
Itabaiana do milagre dos araçás-mirins sazonados pelo sol inclemente e chamejante que esturrica os tabuleiros agrestes.
Itabaiana das ladainhas pungentes! Das tradicionais semanas santas, acompanhadas pelas vozes de Balbino de Boanerges e de Antônio Rodrigues!
Itabaiana das lentas procissões de fogaréu! Dos místicos penitentes a se flagelarem às caladas da noite, em época quaresmal!
Itabaiana do Cruzeiro do Século! Das peregrinações à Cruz dos Montes, onde a multidão, com a fé dos romeiros de Lourdes, acampava em barracas erguidas à orla da mata umbrosa, iluminadas ao perene himineu dos vagalumes.
Itabaiana das campônias alegres, rosas na face e laços vermelhos nas bastas cabeleiras cor de baunilha, sandálias brancas e vestidos de cassa para a missa do dia.
Todo esse maravilhoso, expressivo painel imprimiu nostalgia, lirismo ao seu espírito, para o resto da vida.”

E ainda retratando o pai inteligente, bondoso e amigo, acrescenta:

“De conversação fluente e verve otimista, empregando o vernáculo dos grandes mestres, doutrinava e encantava a um tempo os amigos, admiradores de suas palestras animadas. Ovídio e Cícero, Tito Lívio e Horácio foram-me nomes familiares à custa de ouvi-los, mencionados nas maravilhosas citações dos clássicos prediletos. A França gloriosa com o gênio de Napoleão a encher o mundo era objetivo do seu mais vivo entusiasmo. Acompanhou com profundo interesse a imensa hecatombe da Europa de 1914, sorvendo largamente as vitórias de Joffre e Pétain, cheio de admiração ante a heroica resistência de Verdun, que atassalhada por bombardeios ininterruptos durante dois anos, quase conduziu a França à glória da batalha do Marne.
Esgrimista ágil da ideia, sua eloquência encantava, quando numa síntese literária, a imaginação alada, descendo do mais remoto período da Literatura Francesa com o Restaurador das Letras, penetra no famoso Palácio de Rambouillet, na Abadia de Port-Royal ou na Academia Francesa. Interpretando os gênios sublimes de Cornaille, Racine e Bossuet, discorrendo sobre os princípios filosóficos dos enciclopedistas, no século XVIII, enaltecendo Chateaubriand em O Gênio do Cristianismo” ou o intrépido propugnador do Direito e da Liberdade, o lírico romancista de fama universal – Victor Hugo – alma genuflexa, ungida de admirável fé cristã diante dos vultos excelsos dos mártires da França imortal”.

Nesta parte Cecinha Melo abre parênteses para fazer uma citação do desembargador João Melo sobre Joana D’Arc e Bernadete de Lourdes. E continua logo depois:

“Quando deixava as longas leituras que lhe faziam perder a noção do tempo, quando “descia à terra”, como ele dizia, à roda dos amigos sinceros que o procuravam sempre, despejava aquele cachoeirar de cintilações harmoniosas, lantejoulado, rico de evocações históricas, ambrosia de que se alijava sua vigorosa cerebração.
Bebia na poesia de Prado Sampaio, seu íntimo amigo, a linfa que o dessendentava dos labores do estudo constante, feito quase sempre até altas horas da noite. Gostava, dizia, que os galos lhe anunciassem a hora do repouso. Jamais empregava a expressão “vou ler”, mas, “vou estudar”, e de tal modo prezou o estudo que, aposentado, continuava a adquirir os novos tratados concernentes à ciência do Direito. Ao falecer estava ao alcance da sua mão o mais recente livro de Paulo Lacerda, cujas folhas últimas ainda estavam ligadas.
Varão de rija fibra, desses que prezam a verdade e a justiça, ainda que “o céu e a terra se coligassem contra eles”, misto admirável de altivez e elegância de espírito, circunspecção e polidez, cuidando com esmero do alinho pessoal, trajando rigorosamente o fraque, jamais usando trajes claros senão em casa, era o desembargador Silva Melo um perfeito cavalheiro e magistrado emérito, tornando-se, destarte, consultor de seus íntimos amigos.
Dotado de inquebrantáveis sentimentos de civismo, a ideia da fundação do Instituto Histórico e Geográfico lançada pelo espírito jovem e idealista de Florentino Menezes, encontrou plena aceitação de sua parte. Animou a centelha com a pujança de sua intelectualidade. E naquele dia alvissareiro, 6 de agosto de 1912, nascia à 1 hora da tarde, este Instituto fadado à luminosa trajetória que a todos surpreende. Nos seus austeros e escuros trajes das grandes solenidades, lá estavam eles em torno da mesa onde flores naturais em jarros de porcelana desenhavam variegados e alegres coloridos: Caldas Barreto, Florentino Menezes, Silva Melo, Álvaro Teles de Menezes, João Maynard, Alcebíades Paes, Teixeira Fontes, Armindo Guaraná, João Antônio de Oliveira, Nobre de Lacerda, Prado Sampaio, Francisco Martins, Virgínio Santana, Alfredo Cabral, Evangelino Faro, Moreira Magalhães, José Correa Paes, Pedro Machado, Francino Melo, Elias Montalvão, Zacarias Paes, sob os auspícios do bravo e honrado presidente do Estado, General Siqueira de Menezes, instalavam solenemente o Instituto Histórico e Geográfico.
A voz vibrante de Florentino Menezes aclama presidente, “entre geral entusiasmo”, o desembargador João da Silva Melo, “como uma homenagem ao seu talento e profundos conhecimentos”, diz o orador, em polidos. encômios. E o Dr. Silva Melo, agradecendo comovido, convida para secretários os Drs. João Maynard e Manuel dos Passos de Oliveira Teles, que tomam seus lugares.
Desde aquele instante, meu pai, que se dizia “recolhido no recesso do lar”, deixa seu campo de ação para, na mesma confraternização de sentimentos, na mesma associação de aspirações, comungar com seus pares nas áreas onde a ciência hasteou a flâmula dos seus ideais.
Perdura nas minhas lembranças a expressão de contentamento que lhe iluminou o semblante abatido, quando, três dias antes do trespasse final, seus olhos divulgam, através da janela, o espetáculo encantador da murta envolvida no alvo manto de suas flores perfumadas – sua murta amiga!... Cobrira-se de flores durante a noite para festejar-lhe as melhoras daquele dia, e repetia ele uma vez ainda aqueles versos prediletos:

Ramo de murta a rescender cheirosa
.............................................
Eu sou o lótus para o chão pendido...

E na fria manhã de 29 de agosto de 1917 fechava-se o livro de sua vida, deixando-nos com a derradeira folha que foi a estoica despedida, o exemplo mais admirável da vida e morte de um homem de bem.
Meus senhores e senhoras:
Ao receber a incumbência sumamente agra de falar sobre a personalidade de meu pai, vencidos os primeiros óbices de recusa, amparou-me a ideia que me animou e sustentou até o fim: ninguém, melhor do que eu, sentiu de perto a pujança daquele iluminado espírito; ninguém devassando o passado que já vai longe descobriria aquela vibrante sensibilidade de amigo, chefe de família e pai extremoso, esmaecida pelo perpassar dos anos. Seus admiradores, seus contemporâneos, descansam na paz do Senhor. Poucos restam dos que privaram da sua intimidade.
Entretanto, meu afeto, reprimido no imo do coração por tantos anos, procuraria recompor, avivar os traços daquela vida que toda se retraiu na mais extrema modéstia e em caudais de ternura e de saudade que jamais fenece, antes com os anos cresce e se avoluma, neste momento, nesta casa, vem prestar-lhe meu maior respeito, minha maior homenagem.
Não me parece extemporâneo repetir estas palavras que tão magistralmente escreveu impregnadas do perfume místico das coisas sagradas: “A História assinala em traços fulgurantes os vestígios da passagem dos espíritos sonhadores do bem em todas as direções de sua atividade. Não obstante a distância do tempo, eles refletem uma grata emanação de energia imortal que se perpetua indefinidamente como essas flores de sacrário que ainda depois de murchas exalam o aroma delicioso da santidade do lugar em que se guardavam”.
Perdoai, seleta assistência, se com as tintas fortes do meu acendrado amor filial, exagerei neste despretensioso e sincero perfil, os méritos do primeiro presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, desembargador João da Silva Melo.”

Filha de pai intelectual, acompanhava-o sempre, desde a infância, às reuniões culturais do Instituto Histórico e Geográfico, convivendo com a intelectualidade da época. “Ela era os olhos do pai. Muito míope, não queria usar óculos. Usava os olhos da filha”. (Depoimento de Maria Laís Costa Maciel, filha de D. Cecinha).
D. Cecinha herdou do seu pai o amor à natureza. Contou-me Maria Laís que a mãe gostava de sentar-se na rede para ler. A casa fazia fundo com uma chácara onde os pássaros se deliciavam com as frutas e alegres com a fartura, cantavam..., cantavam... Principalmente os bem-te-vis. Certo dia ela disse a Maria Laís: “Eu descobri um bem-te-vi gago”. “Que história é esta, mamãe?” “É verdade; ele canta assim: bem, bem, bem-te-vi”.
Cecinha Melo foi mestra e mãe, humanista, oradora eloquente e poetisa lírica, de finas tintas, como se pode deduzir do Poema da Infância, publicado em artigo de J. Freire Ribeiro (seu ex-aluno), quando ela faleceu. Leiam, na íntegra, o artigo e o poema publicados no Diário de Aracaju, de 19 e 20 de julho de 1970:

Cecinha:
Anunciou-me, ontem, sobre noite, um lírio num choro de pétalas, o passamento objetivo da ilustre Mestra sergipana Maria da Conceição Melo Costa, uma das figuras de porcelana da nossa sociedade e um espírito do cristal mais sonoro. Foi, no “Grêmio Escolar” do saudoso educador e digno Magistrado Evangelino de Faro, minha professora de declamação.
Era admirável nessa arte onde fulgem Ângela Vargas, Margarida Lopes de Almeida, Zélia Zelmann e Berta Singerman. No lar, foi Cecinha Melo uma lâmpada de ternura; na cátedra, uma luz de aurora; para o esposo, filhos e netos, um grande coração emoldurado de violetas; para a sociedade, um sol que alumiava os belos momentos que são a vida nos instantes, alegres e felizes, enfim uma criatura admirável nos gestos do coração e fulgores do espírito.
Era, ao meu ver, irmã espiritual de Cecília Meirelles, flor de ternura e graça, de inteligência, de coração, de pensamento, de profunda beleza espiritual.
Trazia-me sempre – generosa para o poeta que escreve esta página e que já se encanece nas Ruas do Tempo –, o incenso e o oiro do seu aplauso, do seu incentivo ao seu ex-aluno do “Grêmio Escolar”.
Em 27 de janeiro do ano em curso, enviou-me por seu ilustre filho, Dr. Darcilo Costa, uma carta encantadora e um poema de grande ternura e de grande beleza, evocando a sua infância, nesta Aracaju que, com justiça, aplaudia a luz tão alta e tão pura do seu pensamento.
Simples, como a água corrente que embala o sono sagrado das árvores, assim se expressa na sua carta:

“... e saiu isso que lhe mando a ler. A você a quem ensinei a declamar versos no curso primário e me surpreendia sempre.
Envio-lhes assim como saíram do meu coração, rústicos, mal alinhados, versos “centopeias” na forma, de que aliás não gosto, pobres versos da sua velha amiga, Cecinha.”

Para o coração dos meus leitores aqui transcrevo os versos da grande Mestra e da Grande Luz que o Senhor arrebatou dos Vales da Vida para o Dia da Paz.

Poema da Infância

Senhor!... Graças eu dou pelos dias venturosos,
deslumbrantes auroras dos meus dias infantis,
– rios cantantes,
deslizantes...

sobre o leito de areias alvadias,
dançando a ária travessa das virações sutis!
Renda de luar entretecida nas acácias brancas,
murta cheirosa a acompanhar-me a vida!
Meu jardim de “formosa-emilia”, minha singela bonina,
indiscreto resedá embalsamando o ar.
Meu gato mourisco chamado André.
Meu pinto-galo de pedrinhas...
redondinhas............................................
na Ponte do Imperador,
que amor!

Meu pião zonzeando, escavando o chão,
minha “arraia de franjas de fustão fustigadas pelo vento,
esvoaçando lá no céu de anil...

(Fustão dos meus vestidos multicores,
como flores desprendidas dos tendais!)
Menina na rua, saltando, pulando,
jogando pião,
“arraia” empinando, espiando “Xangô”,
cadê seu doutor?
Isso não, isso não!
Candomblé insólito, solitário,
da Rua do Rosário!
– negras dançando,
rebolando,
atuadas...
Velas acesas... Santa Bárbara! Galos sacrificados...
Alma aturdida de criança,
olhos assustados
à espera do mistério que seria revelado!
Menina correndo, na cerca trepando
pra XANGÔ espiá!
Jogando pião, arraia empinando...
Isso não, isso não!
(Dizia a mucama)
Eu chamo a Sinhá!
Sonhos fascinantes da infância sem peias, exuberante!
Brancas areias dos morros do Aracaju!
Água do chafariz da Rua do Siriri,
– águas sem igual, em jorros espumantes,
prateadas, saídas da “Boca do Leão”,
que delícia de água, que sabor de alcatrão!
Água quente escorrendo dos canos de ferro...
Menina bebendo na concha da mão!
Cabeça escaldando, na areia saltando:
Lá vem Doutor João... Isso não, isso não!
(zelosa sombra nos desvãos da vida...)
Descanta a velha ama o estribilho antigo
que o eco plange no meu coração...

Sargento-mor da Enfermaria Militar, na esquina de Estância.
Mãos cheias de jasmins-borboleta de invulgar fragrância
para as noites de novena em meu Altar!
São João do Carneirinho. São João do resplendor,
de manto dourado e de Cruz na mão!
Que devoção!
Que infância sem par!
Natal!
Cavalinhos roliços, de largos sorrisos,
seguindo “Tobias”!
Carrossel apitando, rangendo, correndo,
girando no ar.
Violão em surdina, na rede a cantar.
Meus olhos buscam os astros pequeninos,
estrela diamantina a piscar, a piscar...

O pensamento voa às regiões do Tejo,
nas terras de além-mar!
Ouvindo do meu Pai estrofes d’A Judia,
seguindo a esquiva imagem,
– a hebreia linda que a sonhar, eu via.

Senhor, recebe meu coração agradecido
por essa esteira de luz que me acompanha os passos,
por essa infância que me acompanha os passos,
por essa infância rica de sol e de céu,
flamejante de cores
que bebeu da fonte – “olho d’água bíblico”
estudante de amor,
enchendo abismos, afugentando o tédio, suavizando a dor,
Eu te dou graças, Senhor!”

Ao saber da notícia da morte de Cecinha Melo, o jornalista, escritor e professor Ariosvaldo Figueiredo assim se expressou em crônica publicada na Gazeta de Sergipe, em 06/08/1970, página 2:

CARTA DO RIO

Abro o jornal e leio com surpresa a notícia do falecimento de Maria da Conceição Melo Costa, por todos conhecida como Cecinha Melo. Senti como se privasse da sua intimidade.
A vida tem coisas estranhas, curiosas e bonitas. Nunca fui amigo de Cecinha, nunca conversei com ela, mas a admirava. De longe. Admirava-a como ser humano. Como espírito sensível. Como mulher inteligente. Inteligente e vivida. Sintonia de espírito? Afinidade cultural? Não sei. Sei que a admirava. E muito.
A Cecinha foi professora da Escola Normal. Por muitos anos. Muitas garotas passaram em suas aulas. Ela, da cátedra, a todas ensinando, amiga mais que professora, não julgando, não castigando nenhuma, ouvindo e compreendendo cada uma.
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, Cecinha participou, mais de uma vez da sua diretoria. Cooperando sempre. Acreditando na História, acreditando na cultura.
A vida da mulher no interior é complexa e difícil. E se a mulher é inteligente, o caso de Cecinha, há mais obstáculos a vencer, mais incompreensão a enfrentar. Enamorada da vida, Cecinha foi talvez, sem escrever muita poesia, humanismo corajoso, forçado, às vezes a se esconder sob o biombo de uma timidez cautelosa. Em certos aspectos foi pioneira. Ser professora de História,[1] no seu tempo era uma forma de pioneirismo, poucos entendendo-a e aceitando-a. Isso, porém não, a intimidava, não a fazia retroceder em sua crença na cultura, em sua visão do mundo, em seu amor à vida, amor que a acompanhou, aliás, desde menina. Cecinha nasceu e cresceu dotada de coragem existencial. De fidelidade a si mesma. De espírito crítico. Da lucidez de auto-afirmação. Ela, obviamente, nunca me disse isso, eu percebia em seus gestos, em seu viver...
Lamenta-se sempre, a partida de pessoas assim. De uma professora capaz. De uma mulher inteligente. Sensível. Humana, vivida. De lá, onde estiver, que ela inspire os seres aqui embaixo. Para a cultura. Para o entendimento. Para a ternura.

Quando da aposição do retrato de Cecinha Melo no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (a única mulher a quem foi conferida esta honraria, até hoje) falou em nome da Legião Feminina de Combate ao Câncer, outra inteligente, culta e valorosa mulher, a professora e jornalista Leyda Regis, que assim se expressou:

“A Legião Feminina de Combate ao Câncer secção de Sergipe, não poderia estar ausente nesta presença vivida pela sensibilidade afetiva de Maria da Conceição Melo Costa, nossa querida e inesquecível primeira Presidente!
É que o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e a Legião Feminina de Combate ao Câncer têm como que uma afinidade para precisar exatamente toda aquela trajetória de luz e de calor humano que iluminou e aqueceu todos os instantes de sua vida.
Nele ensaiou os primeiros passos para o mundo do espírito, quando, criança ainda, levada pela mão do seu venerando pai, o benemérito fundador desta Casa, que guarda as tradições culturais e históricas de nossa gente, precisamente há cinquenta e nove anos, o desembargador João da Silva Melo, ouvia embevecida e já compreendendo e sentindo as palavras dos Mestres e os conceitos dos Doutos.
E nessa escola cresceu e a inteligência, que já era um dom prodigamente concedido pelo Criador avultou-se, distribuindo-se sem desintegrar-se, num crescendo constante e contínuo, como um nascedouro natural, que não se cansa nem se esgota de brotar água cristalina e fertilizante para esplender na cátedra como Mestra exímia, na Oratória, com sua palavra fácil, colorida, escorreita, convincente; na poesia, suave, sentida, cantante e, até na palestra rotineira porque sabia dar um toque de interesse e sensibilidade aos assuntos mais áridos e desprovidos de atração!
Aqui ficou como marco indelével dessa inteligência privilegiada e dessa sutileza de um espírito inquiridor de beleza e de arte, aquela oração primorosa, proferida quando da passagem do 43º ano da fundação deste Instituto e em que se prestava justa homenagem de gratidão e respeito à memória do seu fundador e primeiro Presidente que também era seu pai.
Foi a primeira mulher a falar neste recinto, como é a primeira a ter seu retrato na galeria dos que honram esta Casa, como sua dedicada Primeira Secretária, que o foi durante vinte anos seguidos.
Mas, não lhe bastavam à atividade complexa de idealismo, as conquistas da inteligência: o coração transbordante de amor fraterno à sorte do seu outro, o próximo, reclamava a solicitude da solidariedade profundamente humana.
E ei-la, como Mestra, derramando-se em zelo e dedicação de mãe, aconselhando, orientando, incentivando ao bem, e, mais alto do que estas pobres palavras, falam suas alunas do Instituto de Educação “Rui Barbosa”, que lhe tinham e ainda têm particular carinho.
No lar, ah!, prezados amigos, no lar, aí estão os filhos, os três filhos que Deus lhe deu, testemunho eloquente de quem soube ser mãe, como define, sublimemente, inspirado, Coelho Neto, e cujo conceito enfeixou neste terceto de um soneto tecido em filigranas de ternura:

“Ser mãe é andar chorando num sorriso!...
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada.
Ser mãe é padecer num paraíso...”

Transpõe os limites do lar!... Vai além... Cada um que sofre é um irmão e cada irmão, parcela de sua alma sensível!...
Nunca a vimos chorar pelo sofrimento próprio, mas muitas vezes derramar lágrimas sentidas, na partilha da dor alheia...
A Legião Feminina de Educação e Combate ao Câncer foi o último centro de irradiação do seu coração afetivo.
Sócia fundadora, sua primeira Presidente e o foi enquanto existiu, vemo-la irrequieta e ativa, planejando e realizando.
O entusiasmo contagiante anulava a inquietude das dificuldades...
Vai à rua e, de lá, tira o doente deformado pela moléstia para acolhê-lo na modéstia de um abrigo, onde não lhe faltaria a assistência precisa em alimento e medicação, e para livrá-lo da angústia, da vergonha de seu aspecto asqueroso, muito mais humilhante, talvez, que o pedir pelo amor de Deus...
Acompanha as nossas “samaritanas” e, com elas a sua filha, companheira inseparável de todos os momentos, sobe ladeiras, afunda os pés em atoleiros ou na areia frouxa e, no casebre infecto, lá distante, leva o conforto do amor cristão, a ajuda material, no só Deus sabe para consegui-la, o alívio do tratamento para que já houvera conseguido quem o pudesse e soubesse fazê-lo
Os médicos são solicitados, os laboratórios importunados com insistentes pedidos de amostras, os comerciantes, os industriais, os banqueiros, os agricultores, ninguém escapa à mão que se estende, pedindo, para dar...
Cecinha era assim!...
Ah!, meus ouvintes, quisera, no tempo, trazê-los ao nosso convívio social, a assistir aos nossos encontros semanais, sentir a alegria comunicativa daquela presença sempre risonha, como se de risos somente, fosse sua existência, porque, como afirmava, imperturbável e serena: “A tristeza é minha, a alegria é de todos”.
Meus prezados amigos:
Dizia no começo destas palavras que o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e a Legião Feminina de Educação e Combate ao Câncer tinham como que uma afinidade para precisar, exatamente, toda aquela trajetória de luz e de calor humano que iluminou e aqueceu todos os instantes da vida de Cecinha Melo Costa.
É que, na verdade, a realidade triunfante que mediou desde o instante em que a menina, levada pela mão do seu venerando pai, ensaiou os primeiros passos para o mundo do espírito nesta Casa de tão caras e nobilitantes tradições e o derradeiro extravasamento do amor ao irmão que sofre, na Legião Feminina de Educação e Combate ao Câncer, afirma, define e retrata a fisionomia moral de Maria da Conceição Melo Costa: Inteligência e Coração.”


[1] Corrigenda da pesquisadora: Cecinha Melo era professora de Literatura Luso-Brasileira e de Educação Moral e Cívica, e não de História.