12- Flora do Prado Maia


(1902-1964). Filha do bacharel Joaquim do Prado de Sampaio Leite e Ester Silva Rego do Prado Sampaio. O sobrenome Maia lhe vem do casamento com Geminiano de Brito Maia. Romancista, cronista e poetisa, Flora foi a primeira mulher a escrever um romance, em terras sergipanas Cenários de Uma Vida, publicado em 1957 e dedicado “à mulher sergipana”. No seu livro, Flora deixa transparecer ideias feministas, através da personalidade da protagonista, jovem independente, criticando e quebrando tabus, tentando viver de acordo com o seu pensamento e não sob o jugo de uma sociedade convencional e hipócrita. Cenários de Uma Vida recebeu notas elogiosas de autoridades literárias, das quais transcrevo os seguintes trechos:
Do escritor Mário Cabral:
“É uma romancista que surge, trazendo, na sua organicidade literária, os índices marcantes da vocação verdadeira. O livro é de leitura agradável e prende o leitor na teia de sua trama desde a página inicial. Só isso constitui no gênero romance, uma grande virtude”.

Do bacharel e professor renomado José Augusto da Rocha Lima:
 “O que não se pode negar no seu livro é uma vibrante imaginação, traços de um realismo razoável e poder de descrição. Por tudo isso, seu nome poderá, sem favor, figurar na história das letras sergipanas e seu ensaio servir de incentivo a novas produções”.

Do jornalista e acadêmico sergipano Eunaldo Costa, também poeta:
“Achei-o digno de encômios pela maneira clara e concisa com que a escritora descreve temas difíceis, demonstrando que possui todos os requisitos necessários para fazer romance...”.

Prefaciando o romance Cenários de Uma Vida, o poeta e acadêmico José Amado do Nascimento assim se expressou:
“Este é um livro de literatura feminina. Escrito em Sergipe e tendo por autora uma sergipana. Literatura de ficção: a história de uma mulher, contada por ela mesma. A apresentação do Cenários Uma Vida, que é a própria vida da personagem central do livro. Este fato literário – um romance feminino – faz-nos lembrar a recente observação do crítico literário Tristão de Athayde a propósito da presença da mulher na literatura brasileira depois do chamado “movimento modernista”. Observa aquele crítico – acertadamente – que, antes de 1922, não era frequente a atividade da mulher no Brasil, especialmente na literatura de ficção. Somente depois é que as mulheres começaram a aparecer. Aparecer com trabalhos que nada ficam a dever às produções masculinas...”.

E adiante:
“Mas aquele fato literário – um romance em Sergipe – exige um exame na literatura sergipana ou de autores sergipanos. Grande tem sido o número de poetas em Sergipe. Basta consultar os dois volumes do “Parnaso Sergipano” coligido por Sílvio Romero. Menor tem sido a frequência de romancistas aqui nascidos.
E prossegue o prefaciante, citando os nomes de dez romancistas sergipanos: todos homens. E ele continua:
Pela sua ausência, poderia parecer que a mulher sergipana não possuía vocação para o romance. Apenas a poesia, a oratória ocasional e a cátedra seriam as suas atividades intelectuais. Agora, porém, quebra-se a tradição pouco lisonjeira, com o aparecimento de um romance feminino em Sergipe. Tal fenômeno literário é de chamar a atenção de críticos e leitores, tanto mais que, manuseando-se o ensaio Sergipe Artístico Literário e Científico, da autoria do saudoso intelectual sergipano Prado Sampaio, de 1928, não se encontra ali nenhum nome feminino, nas atividades literárias.
A referência ao ensaio de Prado Sampaio justifica-se, exatamente porque aquela tradição da ausência feminina, em nossa literatura de ficção, vem ser quebrada pela... filha do Prado Sampaio, que é a autora do presente livro.
Com esse quase grito de independência feminina literária, é de esperar-se que a romancista prossiga escrevendo novos romances e que seja seguida por outras mulheres sergipanas, agora que o ambiente universitário se faz presente.”

E mais adiante, finalizando o Prefácio:
“Como se vê, gira todo o livro em torno da vida de Izaura. Todas as demais personagens que aí aparecem só têm sentido por causa de Izaura. Mesmo o que se sabe delas é através de Izaura. Apesar de alguns diálogos, podemos chamar este livro de monologado... Porém um monólogo que não cansa, seja pela técnica de simultaneidade, seja pela simpatia vaga que a personagem desperta em nós.”
Aracaju, 28/01/1957.
Ass. José Amado do Nascimento.

Flora do Prado Maia contribuiu para jornais e revistas sergipanos, entre os quais a revista Síntese, da Associação Sergipana de Imprensa, da qual extraí o poema “Saudação ao Mar” e a crônica “Comentários”, que transcrevo na íntegra.

SAUDAÇÃO AO MAR

Eu te saúdo oh! mar, meu grande enleio!
No turbilhão, sem fim, que te domina,
Trazes, oculto, dentro do teu seio,
Este fulgor, viril que me fascina!

Nesta tua magia milagrosa,
No teu brado audaz em desatino,
Na tua via crucis dolorosa
Tu penetras, sem dó, no meu destino!

Enquanto vai rolando pela areia,
Neste vigor brutal e tão fecundo,
Indiferente ao canto da sereia

Que te convoca para um grande amor.
Eu vou rolando à-toa pelo mundo.
Sem ter alívio para a minha dor!

COMENTÁRIOS

E milhares de lábios murmuram baixinho: “Seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu...”.
Mas, aqui para nós: eu que sou um pequenino átomo, imperceptível, dos que compõem a humanidade, uma frágil criatura, cheia de defeitos, de imperfeições e de pecados, sujeita portanto a enganos e desenganos, ouso pensar de forma diferente.
É que não me entoa essa conversa de que a vontade de nosso Pai Universal seja essa, que se desenrola aqui, no nosso mísero planeta...
Pensar assim seria fazer um juízo pouco lisonjeiro de Deus, que é infinitamente bom e misericordioso e que mandou o seu único Filho para nos salvar.
Não, não creio nisso, do contrário como se explicariam as leis marciais, a guerra com sua corte de horrores; as lutas hediondas de irmãos contra irmãos; o sangue ardente umedecendo o solo de terras estrangeiras! Por toda a parte a desolação e a miséria! Lares destroçados; torturas, fome, massacres. Crianças desamparadas, lágrimas, dores, sofrimentos; ambições, egoísmos e invejas!? E é essa a vontade de nosso Deus? Não.
Ele lavou as mãos como Pilatos e deixou que os filhos rebeldes, que desconheceram o seu Filho, se digladiassem, aqui, na grande arena mundial. É necessário que reguem a terra com o suor do seu rosto, que sofram, que derramem lágrimas, para que se purifiquem pelo sofrimento.
E desse modo as lutas continuarão; a vida tornar-se-á cada vez mais difícil e as coisas cada vez piores!
E os homens de boa vontade vão fazendo o que lhes dá na cabeça...
Criam ministérios, mudam as leis, mudam tudo; só não conseguem mudar a marcha do tempo, porque o horário eles já anteciparam uma hora, e vejam que não é pouca coisa! (Essa infeliz ideia só serviu para atrapalhar).
Agora é a comemoração dos dias que correm, dias iguais aos outros, de 24 horas (quer pelo horário novo ou velho), mas que se homenageia de outro modo.
Dantes as consagrações eram mais raras, destacavam-se os dias: do áureo verde pendão da nossa terra, o dia de finados, o dia de todos os santos da corte celeste e outras datas. Mas, hoje, há dia para tudo e para todos. O dia do caixeiro, o dia do soldado, o dia do funcionário público, o dia do pracinha, o dia da criança, o dia da árvore, o dia do trabalho, o dia do estudante, o dia das mães e agora surgiu o dia dos pais. É justo; eles também têm seu mérito. Será que vai surgir o dia do padeiro?! Enquanto isso, vou aguardando o dia das vovós, e como sei que este não tardará vou comemorá-lo antecipadamente com:

INSTANTÂNEO DO MEU LAR

São dois amores queridos
Encantadores, sabidos,
Brejeiros como eles, só.
Se alguém os chama traquinos,
“Isto é próprio de meninos”
Desculpa logo a Vovó.

O Luiz veio primeiro
É um grande feiticeiro.
Dessa data se me lembro?
Nasceu num mês ideal.
A 22 de Dezembro
Na semana do Natal.
Foi um presente tão lindo
Que mandou Papai Noel,
A vovó só o compara
Com os anjinhos do céu!

E vem chegando a Gerusa
Que o Luiz chama de Lusa,
Um encanto de vizinha!
Em seguida a tia Olguinha,
Depois entra Iracema
Que ele chama Mapema;
E o drama continua:
O Luiz corre pra rua
O Geninho vai atrás
Lá vai a vovó correndo
E a mamãe, só se vendo
Chega a tropeçar no chão.
O papai que está zangado,
Diz logo muito enfezado:
“Desta vez não tem perdão”!

Mas ele só tem garganta
Faz um barulho que espanta
Não age de outra maneira,
E os guris que estão sabidos
Em vez de ficar sentidos
Vão fazendo mais asneira.

São dois amores queridos,
Encantadores, sabidos,
Brejeiros como ninguém,
Os netinhos da vozinha
Que o Luiz chama: Funinha.

Veio em seguida o Geninho,
Não existe outro igual!
Rechonchudo, pequenino,
Só vive de mão em mão,
E a dindinha do guri
Não quer que ele vá no chão,
Mas à noite, nunca vi,
Abre a boca num berreiro
Que acorda o trecho inteiro!

Durante o dia, que lida!
É uma luta renhida,
Nem se pode respirar,
Reviram tudo e as cadeiras
Ficam de pernas pro ar.
Trazem a casa em alvoroço
Logo depois do almoço
Entornam o frasco do leite
E fazem muita besteira,
O vidro da cristaleira
Chegou a virar sorvete!

É trompaço a toda hora
De vez em quando um cai,
O papai se aborrece
Pega o chinelo e lá vai,
Mas a vovó prazenteira
Que é grande alcoviteira,
Ralha logo com o papai.