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quinta-feira, 10 de junho de 2021

-Irretocável no que fez- UM ADEUS À PROFESSORA CONCEIÇÃO OURO REIS

 

Maria da Conceição Ouro Reis
 13.04.1929 - 06.06.2021 

Sandra Natividade

    Quem a conheceu na juventude se reporta ao físico de Conceição Ouro como escultural rosto de beleza incomum, desenvolta nas atitudes, retórica perfeita, enfim era uma bela mulher em meio a tantas da sua época. Maria da Conceição Ouro, filha de José de Ouro Junior e Maria Mesquita Barreto Ouro, nasceu na cidade de Aracaju em 13 de abril de 1929 alfabetizada no Jardim de Infância Augusto Maynard, seguiu a carreira escolar, curso primário no Colégio Santana - Rua de Maruim, ginasial no Colégio Nossa Senhora de Lourdes - Rua José do Prado Franco e o Clássico no Colégio Atheneu Sergipense. Aluna aplicada tinha foco cerrado na literatura atendo-se ávida e especificamente na leitura dos clássicos e contemporâneos, aspirava com determinação seguir a carreira do magistério necessitando, assim, cercar-se de conhecimentos para a vocação primeira à docência. Sua determinação a destacava em 1946, aos 17 anos, fez sua primeira produção o romance Evelina, sob o olhar orientador da grande mestra Ofenísia Soares Freire, professora de Língua Portuguesa e Literatura Portuguesa e Brasileira.

    Em 1949 não havia em Aracaju o curso que Conceição gostaria de fazer, então os denodados pais enviaram-na para estudar em Salvador deixando a jovem como hóspede do Instituto Feminino da Bahia local onde permaneceu até o final do curso. Conceição prestou vestibular na Faculdade Católica de Filosofia da Bahia marcando deste modo, seu ingresso exitoso no Curso pretendido Letras Neolatinas que concluiu em 1953, naquele mesmo ano fez especialização em Francês e Italiano/UFBA, período que lhe ensejou ensinar Português e Francês no Colégio Brasil e no Colégio de Aplicação da própria Faculdade. A cuidadosa docente continuou estudando, fez extensão em Psicologia na Faculdade Católica de Filosofia da Bahia/1954, pós-graduada em Metodologia do Ensino/UFS/1973 e formação em Psicanálise e Teoria Psicanalítica/UFS/1994.

    Lá no longínquo 1954 quando Conceição Ouro voltou de Salvador para a terra natal, Aracaju, com o diploma em mãos, foi prontamente convidada por Dom Luciano José Cabral Duarte, diretor da Faculdade Católica de Filosofia, para ensinar italiano, aceitou a cátedra que enobreceu por cinco anos. Depois de um namoro e noivado que duraram nove anos, casou em 1957 com José Maria Campos Reis, advogado e, por curto período as atividades docentes cessaram, contudo, retomadas mais adiante. Da união matrimonial nasceram os filhos Mônica e Domingos Sávio. Conceição, enfim, prazerosamente retornou com todo o ardor à docência atendendo convite do Padre Mendonça, diretor do Colégio Estadual Atheneu Sergipense passando, assim, a lecionar espanhol no Curso Clássico, daí não parou mais atendendo a vários estabelecimentos de ensino: Colégio Tobias Barreto, Colégio do Salvador, Colégio Patrocínio de São José, Colégio Nossa Senhora de Lourdes neste último por onze anos ininterruptos. 

    A professora que por competência inquestionável faz parte da história da Educação em Sergipe, lecionou eficazmente todas as matérias do seu registo no Ministério da Educação e Cultura/MEC: Português, Espanhol, Italiano, Francês e Latim. Conceição lecionou com esmerada dedicação também no Colégio de Aplicação/UFS, aonde chegou a exercer o cargo de vice-diretora durante quatro anos. Pelo critério de antiguidade e por ser professora fundadora do Aplicação foi incluída no quadro de servidores da Universidade Federal de Sergipe, de onde se aposentou em 1990.

    Sentindo-se útil não parou, divisou no horizonte nova perspectiva seguiu incentivada pela filha a renomada psicanalista Mônica Ouro Veras, o caminho da Psicanálise. Iniciou buscando conhecimentos para enriquecer mais seu vasto currículo, começou a viajar participando de pesquisas, cursos e congressos: no exterior completou sua formação psicanalítica em Zurich/Suíça, 1992 Paris/França na Associação Freudiana, 1994 e Congresso em Lisboa/Portugal. Com os conhecimentos altamente sedimentados, no mês de setembro/94 inaugurou uma Clínica no Centro Médico Odontológico, Bairro São José em Aracaju, atendendo sua clientela as segundas e terças-feiras. Nos outros dias úteis sempre em parceria com a filha Mônica realizava atendimentos em Salvador, trabalho gratuito destinado a população carente, fruto exitoso de dois Projetos conveniados com a França e depois Canadá. 

    A nobre professora desempenhou com fidelidade tudo o que se propôs fazer - professora universitária, escritora, poetisa, autora didática, colaborou em Jornais e Revistas: Revista Cultura da UFBA/1952, Diário da Bahia/1952, A Cruzada de Aracaju/1952, Diário de Aracaju/1970, A Tarde de Salvador/1981-1991, colunista do Jornal da Cidade de Aracaju,  Jornal El Sergipense, Jornal das Letras da Academia Sergipana de Letras,  Aperitivo Poético de SE, Calendário Cultural de Aracaju/1992, Revista da Academia Literária de Vida. Participou em Poesia Sergipana/1988, Brasília; A Poesia Sergipana do séc. XX/1988, RJ. Suas publicações: A Lagoa do Fauno/1975, Salvador (poesia); No Colégio de Aplicação/UFS trabalhou para implantação do Projeto de Criação Literária/1980, Aracaju (didático), Redigindo bem ou A Arte de Comunicar-se, 1988, Aracaju (didático); tem mais de 40 livros inéditos em diversos gêneros literários, 30 trabalhos de Psicanálise e Mitologia acrescidos por: Vida, Água, Fogo, Terra e Ar; Psicanálise Humanizada (ensaio); e Lições da Vovó - Método Camaleão (crônicas). O neto Lucas de Ouro radicado em Salvador/BA,para homenagear a avó, idealizou a publicação denominada Coleção 80 anos de Conceição Ouro, iniciando pelo primeiro livro da escritora sob o título Evelina e depois Os Executores.

    A conceituada professora atuou como membro e vice-presidente do Núcleo de Atendimento Psicológico - NAPSI com sede em Salvador/BA, membro fundador do Fórum Bahiano de Formação em Psicanálise e Estudos Disciplinares, professora do Curso de Teoria Psicanalítica da UNIGAES (pós-graduação Latu Senso), fez Apresentação de papaers no Centre Hospitalier Robert Ballanger - França (1993-1994-1997 e 1999), participou de Cursos em Zurich e Paris apresentando trabalhos na área da psicanálise, membro Colaboradora do MAC – Movimento Cultural Antonio Garcia Filho e membro fundador da Academia Literária de Vida. Detentora de reconhecimentos: Educadora do Ano/1992 pelo Sindicato dos Professores de Sergipe; Diploma de Honra ao Mérito da Associação de Professores Licenciados do Brasil seção Sergipe; Título de Educador do Ano, conferido pelo Sindicato dos Professores da Rede Particular de Ensino de Sergipe; Diploma de participação no 1º Prêmio Banco Real de Talentos da Maturidade 1999, 2000, 2005 e 2007; Título de Professor Emérito da UFS/2005; Placa Comemorativa do 46º aniversário da Secretaria da Educação de Sergipe/2006 em reconhecimento à capacidade administrativa e serviços prestados à Educação em Sergipe; outorgada Placa da Independência pela Secretaria de Estado da Educação de Sergipe pelos serviços prestados à Educação; Título Educadora Destaque - 2008 conferido pelo Governo do Estado através da Secretaria de Estado da Educação; Troféu Falcão de Ouro, entregue na III Bienal do Livro em Itabaiana/2015; Menção Honrosa pela secretaria de Estado da Cultura - Secult, em 18/maio/2017.

Conceição Ouro ficou viúva há alguns anos, recentemente o filho Saulo faleceu vitimado pelo Covid-19, mas sua descendência cresceu deixando entre nós, bens afetivos valiosos a exemplo da filha Mônica, netos e bisnetos. Assim, partiu para a eternidade em 06 de junho de 2021 a graciosa e competente professora, deixando valoroso legado à Educação sergipana através dos relevantes serviços prestados nos diversos seguimentos que atuou.

À confreira Conceição um breve adeus! 7/Jun/2021.

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Pesquisa realizada em: A Mulher na História /Segrase/1994, de Maria Lígia Madureira Pina. Sindicato dos Professores sua História e Perfil dos Presidentes/2009 de Yvone Mendonça de Souza. Vultos da História da Educação em Sergipe/Infographics/2015, Resumos Biográficos de Educadores/2017de Maria Hermínia Caldas e Currículo da escritora nos arquivos da Academia Literária de Vida.

Texto: Sandra Natividade – jornalista, escritora, membro da Academia Literária de Vida, cadeira n. 12 – Patrona Flora do Prado Maia, membro do Conselho Editorial do O Jornal Batista, membro da Academia de Letras de Aracaju, cadeira n. 19 - Patrono Genolino Amado.

Sandra Natividade, Maria Hermínia,
 Conceição Ouro e Cléa Brandão
 no lançamento do livro de
 Conceição - OS EXECUTORES

Fotos: SR, no acervo da Academia Literária de Vida.