6-Etelvina Amália de Siqueira

  (1862-1935)  
Nasceu em Itabaiana e lá fez o curso primário.Transferindo-se com a família para Aracaju, prestou exames para a Escola Normal, onde se distinguiu pela inteligência e aplicação, tendo colado grau na primeira turma de formandos da Escola Normal, fundada em 1822. Logo após a formatura, fundou o seu próprio colégio para os ensinos primário e secundário que, sob a sua laboriosa direção, funcionou de 1885 a 1890.
Foi então nomeada professora para a Barra dos Coqueiros, naquela época um simples povoado. No ano seguinte (1901), foi transferida para a escola primária anexa à Escola Normal (Escola Modelo). Em 1911 foi nomeada professora da Escola Modelo e auxiliar do diretor da Escola Normal e anexa. Em 1912 foi nomeada catedrática de Português da Escola Normal.
Inteligência fulgurante, Etelvina Amália de Siqueira foi poetisa, contista, jornalista, oradora e declamadora. Colaborou para o jornal A Discussão, de Pelotas (R. G. do Sul), no qual escreveu defendendo a abolição da escravatura, assunto que polemizava a Nação. Foi também republicana.
Contribuiu para vários jornais de Aracaju, nos quais publicou discursos sobre temas abolicionistas.
Por tudo quanto realizou nos campos da literatura e da educação, tem esses dados biográficos inscritos no Dicionário Biobibliográfico Sergipano, do Dr. Armindo Guaraná:
“Etelvina Amália de Siqueira – Já não fulgura mais aos nossos olhos virtuosa e inteligentíssima criatura, portadora do nome que encima estas linhas e que nasceu neste abençoado Sergipe, onde não há depois do céu maior formosura.
Há três anos, precisamente, no dia de hoje, desapareceu do cenário da vida o seu vulto de mulher admirável que a todos nós empolgava, não só pelas qualidades excelentes do seu espírito, sempre em luta por uma vida honrada, como pela sua grande inteligência que ressaltava no delicado e espinhoso mister de educadora e mestra desvelada e incansável em transmitir o seu saber a inúmeras patrícias suas que hoje, por certo, bendirão o seu nome.
Senti que, ao pisar o solo da minha terra, não mais encontrasse aquele tipo exemplar de mulher sergipana que tanto me comprazia em ver, fraternalmente unida como flores em carimbo, às eméritas professoras Clotildes Ramos Machado e Quintina Diniz de Oliveira Ribeiro. Se me fosse possível cobriria hoje com as rosas perfumadas do “Jardineiro do Meu Sonho” o leito último onde repousa para sempre a minha inolvidável e adorada Amiga. Isto, porém, não me é permitido mais. Infelizmente também não sairá à medida do seu mérito a pequeníssima homenagem que, para pagar uma dívida de coração, pretendi fazer nestas obscuras linhas. E é para dar brilho a este preito de saudade que me lembrei de reproduzir o lindo soneto da admirada escritora e poetisa sergipana que o declamou por ocasião da festa em que foi oferecida a Bandeira Brasileira ao “Destróier Sergipe”, no qual o seu brilhante talento, falando ao mar em tom de súplica, incitava ao dever o navio a quem era confiado o pendão sagrado da pátria, deixando eloquente o entusiasmo e o seu culto patriótico a Sergipe, terra adorada, o seu berço natal.

“Traça, ó Sergipe, o sulco luminoso
Cava bem fundo no seio do Oceano
Deixa passar o pavilhão garboso
Honra e valor do povo sergipano!

Da brisa aos beijos treme gloriosa
As carícias do mar recebe ufano;
Parcela do pendão vitorioso,
Sempre rival do pavilhão romano!

Ameiga-te Oceano, tem cuidado,
De tuas vagas prende a fúria insana;
O penhor que te entregam é sagrado!

Levas no dorso a honra sergipana,
Entre fios de seda e brocado
Nobre palpita a honra americana!

“Só Deus sabe quanto vibrou a minha alma quanta emoção senti ao ler estes versos, longe do meu amado Sergipe. Que o seu e o meu Estado, pelo impulso generoso e agradecido das mulheres sergipanas que são flores irmanadas na bondade, façam justiça à sua memória, não a esquecendo nunca. É o que nesta hora de saudade desejo e espero de minhas gentis conterrâneas”.
(Escrito por Emília de Marsilac Fontes, em 18 de março de 1938, extraído do álbum da família Diniz de Oliveira Ribeiro.)

Do caderno de poesias de Etelvina Amália de Siqueira, que me foi gentilmente cedido pela sua sobrinha e depositária deste precioso tesouro, Marieta Alves de Almeida:

SONETO

Ao longe brilha a veiga esmeraldina
Das searas a coma além flutua
Ouvem-se perto os guizos da charrua
E sente-se o perfume da bonina

Num retalho florido da campina
Como virgem esquiva a meiga lua
Por entre os ramos mostra a face sua
Com certa garridice de menina

É tão bom e tão casto, à tardinha
Ouvir os doces hinos do trabalho
De mistura com o cantar da avezinha,

Que saltita inquieta n’algum galho!
Escutar o gemer da cascatinha,
Que se enrosca suave entre o cascalho.

SONETO

Rompia a aurora louçã, perfumosa,
Seus gratos odores deixando no prado,
Tremiam ainda no céu estrelado
Carimbos luzentes. Que cena formosa!

Cantando travessa, gentil e garbosa,
Descalça, risonha, cabelo adornado
De flores silvestres, andar requebrado,
Sorvendo perfumes na boca mimosa.

A filha das serras, a virgem selvagem
Passava, de rosas arfando-lhe o seio,
Os bastos cabelos brincando co’a aragem.

Feliz, descuidosa, sem dor, sem receio,
E a brisa fagueira, na mansa passagem,
A face morena beijava-lhe em cheio.

A FAUSTO CARDOSO
(Recitada ao pé do seu túmulo, no dia 28 de agosto de 1907)

Silêncio, dizem-no ouvir, nota por nota,
O soluçar do povo sergipano!
Mais esta prova de amor e de saudade
Àquela alma valente de espartano!

Águia, no seu giro altivolente,
Correu em busca deste ninho amado;
De altivos ideais embevecido,
Vinha bater os erros do passado.

Nada de ódios; no seu peito nobre
Não se abrigava um sentimento vil,
Fascinava-o a glória de Sergipe,
Esta nesga inditosa do Brasil!

Como o loiro profeta da Judeia,
Teve a cruz e o suplício do Calvário,
Lenho sagrado – a Pátria estremecida,
O Horto – a carabina de um sicário.

Que nênias tristes, que saudade funda,
Deixaste n’alma de Sergipe inteiro!
Mas o teu sangue nos remiu, herói,
Da liberdade ardente pregoeiro!

Adeus, adeus, oh! Fausto, aí te ficam
Todas as flores de minha alma pura!
Que os prantos de Sergipe, agradecido
Te orvalhem sempre, sempre a sepultura.
  
AO “AMIGO DO ESCRAVO”

Marchai, oh! Astro de glória!
O mundo é vosso, correi!
O empenho é árduo, terrível,
Embora – lutai e vencei!

Mocidade, escuta o eco
Da antiga Jerusalém,
Soltado, a morrer de amores
Por Deus, o supremo Bem!

Quem no berço, inda oscilante,
Vos daria tanta luz
Senão a harmonia maga
Dos gemidos de Jesus?

Quase exangue, saturada
Da torpeza, a vil Judeia
Viu expirar em seu seio
A redentora epopeia!

Infeliz! Cega e perdida,
Não via que o crime atroz
Velava-lhe a negra fronte
Em denso crepe, veloz!

Não via que a humanidade
Herdara do seu Jesus
As bagas quentes do pranto,
Dos olhos a meiga luz!

Cativo um povo, gemendo
Da vergasta o açoite vil,
Estende os braços convulsos
Vertendo prantos a mil...

Vós despertastes ao grito
Da infeliz escravidão;
Somos amigos, dissestes,
Dos míseros que não têm pão.

Quanta doçura, Deus grande,
Quanta fé e quanto amor,
Nesta esperança que brilha
Do cativeiro no horror!

Remir no mundo os escravos
É curar de Cristo as chagas;
Marchai! Que o suor da luta
Vos doure a fronte em bagas.

Quando um dia o sol brasíleo
Surgir, mimoso de amor,
Aquecendo as faces frias
Do escravo ao seu calor.

Estátuas de luz e vida,
Mil renascido à toa,
Tentarão roubar seus raios
Para tecer-vos uma croa!

Ide, librai vossas asas
Da fé no dorso possante!
Acordai Deus, que aniquile
A hidra negra, infamante.

A GUILHOTINA

A guilhotina! E és tu oh! França gloriosa,
Ninho do saber, do bem, da liberdade,
De Mirabeau a pátria nobre e grandiosa
Que guardas em teu seio tamanha iniquidade?!!

Invoquemos de Hugo a alma generosa,
Inundando de amor o peito à mocidade;
E esta, sempre grande, a folha vergonhosa
Ao código francês arranque, por piedade!

A guilhotina! O monstro horripilante!
Dê-se o cárcere, a treva ao infeliz que errou;
Punir assassinando, é vil, é infamante!

E tu, berço de herves, altiva e triunfante,
Não houves aterrada, ao colo que tombou,
No último estertor o grito lancinante?

O POR DO SOL

Lá vai sumindo a loura cabeleira,
Em leito de verdura o sol poente,
Traz-nos a brisa uma canção fagueira
Doce hino de amor, terno, indolente.

Na fímbria do horizonte, feiticeira
Nuvenzinha acompanha o rei dormente;
Acres aromas rescende a terra inteira,
Rendendo preitos ao Onipotente.

Em céu de opala a lua alvissareira
Mostrava sua luz alvinitente,
Coando-se entre os leques da palmeira.

Uma tarde inebriante e tão faceira,
Um por do sol, assim, tão imponente
Só existem em plaga brasileira.

 NO TERCEIRO ANIVERSÁRIO DA
MORTE DO DR. FAUSTO CARDOSO

Se tombaste, gigante, no regaço
De Sergipe tão teu, que tanto amaste,
Enlaçado num forte e doce abraço,
Entre flores, pra sempre repousaste!

Com teu sangue valente, em rubro traço,
Em nossos corações firme apertaste
Do amor da pátria o indissolúvel laço,
E com lágrimas o pacto assinaste.

Descansa em paz, brioso paladino,
Que importa, se colheste amargos louros?
Da história, no amplo seio adamantino.

Teu nome fulgirá entre os vindouros
– Raio de sol, estivo, matutino,
Legando à Terra mundos de tesouros!

QUADRAS

Por que se curvam os lírios
Com tão profundo langor?
Serão saudades, ciúmes?
E os lírios sentem amor?

E a vaga por que se estende
Na praia com tal furor?
Pois o mar também suspira
E tem delíquios de amor?

A sensitiva se a tocam
Se retrai, será pudor?
Pois ela sente e palpita
E tem enlevos de amor?

A juriti se lamenta
Lá na copa do arvoredo,
Quem contou à pobrezinha
Da dor, o triste segredo?

Se a flor mimosa enlanquece,
Se o oceano delira,
Se no leque da palmeira
O passarinho suspira;

Suspira a Deus que esse riso
Que te enflora o róseo lábio,
Não se converta, criança,
Da dor no acre ressabio.

SONETO
À minha afilhada Maria Amália Zikler, pelo seu natal.

Entra-me n’alma, oh! Raio matutino,
Dissipa-me do peito essa tristeza,
Sempre a cantar o mavioso hino,
De tua juventude a marselhesa!

Tens mais graça e mais luz do que a beleza
De um sol de maio, louro, vespertino,
Do teu olhar azul essa pureza,
De promessas gentis foco divino!

No azul do teu peito sempre aninha
Da inocência os risonhos madrigais
Dos paramos azuis casta avezinha

Em busca dos formosos ideais
Onde a flor da virtude não definha,
Aquece, oh! Anjo, o inverno da dindinha.

MINHA TERRA
  
Minha terra é uma criança
Sempre risonha, não chora,
Encantada das belezas
Com que a natureza a aflora.

Uma fada, um anjo, uma musa
Não sei o que diga dela
A magnólia que enfeita
As tranças de uma donzela!

É o segredo que expira
Nos lábios do vendaval;
É a estrela vespertina,
Tem encantos sem igual.

É o bogarim que balouça
Tremendo fresco no hastil;
É a campesina faceira,
Garbosa, bela e gentil!

É o rouxinol a encantar-nos
Quando a tardinha o convida;
Foi lá que eu senti prazeres,
Que vivi, meu Deus! Que vida!

                 II

À sombra dos adustos cajueiros
Aspirando o perfume de seu seio,
Eu gozei dos anjos a harmonia,
As aventuras do céu, que doce enleio!

Saltitando em seus campos de boninas,
Lá na infância que fugiu e não vem mais,
Eu era como as rosas matutinas,
Orvalhavam-me os beijos dos meus pais.

Abraçada à cintura da irmãzinha,
Que brincava como eu, forte e ligeira,
Íamos juntas, nas asas da alegria
As flores raptar da laranjeira.

Tínhamos flores, cantos e perfumes,
Pássaros, borboletas, mil brinquedos,
Improvisávamos lindas barraquinhas,
À sombra dos frondosos arvoredos.

Quando o sino plangente da matriz
Convidava os fieis à devoção,
Minha mãe, esse arcanjo de doçura,
Nos levava contente pra oração.

Minha terra é bonita mais que as outras,
É vaidosa princesa do sertão,
Tem seu leito num campo de verdura,
E por leque a mais pura viração.

Os raios do sol diamantino
Brilham mais que os aljôfares do Ceilão,
Do seu luar, na palidez que mata,
Se resume de Deus a criação.

                  III

Tem uma serra orgulhosa
Invejada no Brasil
Ribeirinhos cor de prata
E um céu de puro anil.

Quando a tempestade surge,
Ao ribombar do trovão
Não lhe míngua o encantamento
Há mais fé no coração.

Não tendo flores viçosas
Que te lance ao lindo colo,
Aceita, mãe, a saudade
Que colhi em estranho solo.

Recebe a prova singela
Que te manda a filha ausente.
Reparai – vai orvalhada
De um pranto ainda quente.

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Do livro “A Mulher na História” de Maria Lígia Madureira Pina.