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Patrona de Honra


As fotos e textos sobre a Patrona de Honra e Patronas foram retirados do livro “A MULHER NA HISTÓRIA, de Maria Lígia Madureira Pina, publicado em 1994. Veja página Publicações neste blog.

23.02.1904 - 09.12.1998
 LEYDA REGIS

Natural de Aracaju, nasceu em 23 de fevereiro de 1904, filha de João e Amélia Regis e irmã da Cezartina, que foi para a pequena Leyda uma segunda mãe. Leyda fez o curso primário no Grupo Escolar “General Siqueira”, ao fim do qual fez exame de admissão para a Escola Normal, onde foi aluna dedicada, absorvendo os ensinamentos de mestras como Etelvina Amália de Siqueira, Quintina Diniz de Oliveira Ribeiro, Mariana Braga, Mariazinha Diniz e tantas outras, de quem guarda as mais gratas recordações, não perdendo oportunidade de relembrá-las em conversas e discursos. Diplomada professora, Leyda Regis queria estudar Medicina. Com esse objetivo, prestou Exame de Madureza (espécie de vestibular da época). Foi aprovada, mas não conseguiu ir para Salvador cursar a Faculdade porque a irmã Cezartina, que mantinha a família, não podia custear-lhe os estudos fora do Estado, uma vez que ajudava a manter o irmão Antônio, estudando no Seminário, em São Paulo. A frustração não abateu o ânimo da Leyda porque ela é uma destas mulheres para quem os revezes são fontes de estímulo. Decidiu-se a fazer o Curso de Contabilidade na Escola Técnica de Comércio “Conselheiro Orlando”, tendo completado o curso com distinção, em 1925. Ingressando na carreira do magistério, iniciou no “Grêmio Escolar” do Desembargador Professor Evangelino de Faro, onde lecionou, durante os anos de 1925 e 1926. No ano seguinte foi nomeada professora do Grupo Escolar Barão de Maruim. Neste mesmo ano (1927) foi nomeada “Oficial de Gabinete” do Diretor Geral da Instrução, Dr. Clodomir Silva. Ensinou também no Colégio Nossa Senhora da Glória, de Cecília Maia (a renomada Iazinha Maia). Lecionou gratuitamente no curso noturno da Escola “Horácio Hora”, anexa ao Centro Operário Sergipano, de 1926 a 1933. Prestou concurso público para a Escola de Aprendizes Artífices de Sergipe, em 1928. Por questão de ordem administrativa o concurso foi anulado. Inconformada, a professora Leyda requereu revisão de provas ao Ministro da Agricultura, Indústria e Comércio, a quem eram subordinadas as escolas industriais. Foi atendida pelo ofício de 21 de julho de 1928, que determinava “fosse admitida na primeira oportunidade devido à aptidão e preparo revelados nas provas”. A Portaria Ministerial só foi cumprida em 1930, tendo assumido a cadeira como “professor adjunto”. Em 1933 submeteu-se a concurso público para fins de efetivação, sendo aprovada em primeiro lugar. Na Escola Técnica, Leyda Regis foi professora polivalente, ensinando Física, Química, Matemática, História Natural, gratuitamente, a fim de que a escola não perdesse a oportunidade de criar o Curso Complementar. Após a reforma que instituiu o Curso Básico, passou a ensinar Português no referido curso.

É fundadora da Revista “Sergipe Artífice”, para a qual contribuíram alunos, professores, Corpo de Saúde e pessoal administrativo. Fundou também o Grêmio Cultural “Professor Francisco Travassos”, de cujo Estatuto, cumprido a rigor, constavam: leitura dinâmica, concurso de contos, campanha para aquisição de bons livros, reuniões lítero-musicais, exibições esportivas, excursões, visitas a escolas congêneres e o jornal EIA (sigla da escola), impresso na secção de Artes Gráficas pelos alunos da escola. Foi a primeira diretora da escola por nomeação, em todos os impedimentos do diretor Pedro de Alcântara Braz, quando estes não ultrapassavam 30 dias. Estagiou na Escola Técnica Nacional, de janeiro a março de 1946, sem outras vantagens além dos vencimentos para observar os processos de trabalhos escolares referentes à sua disciplina. Mas Leyda Regis não se dedicou apenas ao magistério. Atuando como contabilista foi responsável por toda escrituração das seguintes organizações: Lar “Imaculada Conceição”, de São Cristóvão, onde até hoje é recebida com manifestações de carinho, não só pelas antigas irmãs como pelas atuais e pelas alunas, porque todas sabem da sua atuação em benefício daquela casa beneficente. Do Hospital de Cirurgia, atual Hospital das Clínicas “Dr. Augusto Leite”. Da Legião Feminina de Combate ao Câncer, da qual foi um dos esteios. Do Oratório Festivo “São João Bosco”, tendo sido amiga de D. Bebé, da qual é a biógrafa. Da Fundação “Mario Pinotti”, hoje Creche “Dom Vicente Távora”, sem receber qualquer salário. Pioneira do desporto feminino é, em terras de Sergipe, fundadora, ao lado da irmã Cezartina, do Clube Desportivo Feminino, tendo jogado vôlei e basquete pelo Sergipe Sport Club. Foi exímia violinista, tocando de ouvido, do popular ao clássico. Compôs valsas executadas em saraus familiares, acompanhada ao piano e pela bela voz de sua irmã Ester, conhecida por Nenêm. A sua primeira valsa composta quando ainda era menina foi tocada na Praça Fausto Cardoso pela Banda da Polícia Militar, regida pelo Tenente Mamede. Cronista - colaborou para os jornais A Cruzada, A Boa Nova, O Diário Manhã, O Imparcial, A República, Sergipe Artífice, Síntese e Boletim da Comissão Brasileiro-Americana da Educação Industrial. Por sua contribuição a todos esses órgãos de imprensa obteve da Associação Sergipana de Imprensa a carteira de Jornalista nº 190. Romancista - escreveu Retorno, uma estória passada São Cristóvão, sendo a renda da publicação revertida em benefício da Legião Feminina de Combate ao Câncer. E Bebé – Subsídios Para Uma Biografia, em homenagem à grande humanitária Genésia Fontes, sendo a renda da publicação doada ao Oratório Festivo “São João Bosco”. Oradora - fez vários discursos e palestras, dos quais destacamos: Palestra, pronunciada para senhoras, em 15/11/1946, no Colégio N. S. de Lourdes, por ocasião do Congresso Eucarístico Diocesano; Recado, aos diplomandos da Escola Técnica Industrial, em 1957, em nome do Dr. Francisco Montojos, diretor do Ensino Industrial, naquela época; Discurso de Paraninfo, em 12 de dezembro de 1952, publicado em A Cruzada de 11/01/1953, do qual transcrevo um trecho, onde faz a sua oferenda poética aos afilhados:

“Eu vos dou este imenso acolchoado de nuvens que se entulham graciosamente sobre o fundo azul de seda raríssima, leito principesco em que descansa a Rainha da Noite, convidando ao silêncio e ao repouso... e o manto real de ouro e púrpura com que se reveste o Soberano do Dia para presidir aos anseios e a atividade dos homens!... Eu vos dou o colar de estrelas dos diamantes em que se prende a cruz preciosíssima que refulge a riqueza da Pátria e predestina a crença de sua gente!... Eu vos dou as gemas que assoalham este solo querido, escondidas sob o tapete luxuoso de uma vegetação ímpar e que, muita vez, num impulso de desafio rasgam a superfície da terra para confundir a luminosidade do sol!... Eu vos dou as ondulações e chamalotes dos rios como se fossem tafetá líquido, a espanejar na terra inculta a umidade que a fertiliza!... Eu vos dou o gênio de uma águia humana, Rui Barbosa, elevando aos píncaros da glória, o renome da Pátria!... Eu vos dou a precisão e a sensatez do estilo corretíssimo de Machado de Assis, esteta da linguagem, poeta da prosa harmoniosa, e sentido no verso!... Eu vos dou a probidade e o espírito empreendedor de Mauá, despojando-se de tudo para fazer tudo pelo Brasil, rasgando caminhos para o trânsito das civilizações!... Eu vos dou a inspiração musical de Carlos Gomes e a revelação artística de Horácio Hora, gravando no som e reproduzindo na tela a imaginação fertilíssima de José de Alencar!... Eu vos dou a bravura de Caxias, soldado modelo, e a audácia de Barroso, marinheiro exemplo, fortalezas inexpugnáveis na defesa da Pátria!... Eu vos dou a espiritualidade sadia de Jackson de Figueiredo, sentinela indormida pela luta e pela conquista da maior de todas as pátrias – a Eterna Pátria!...”
 E depois de falar sobre os horrores da guerra e das dificuldades do Ensino Profissional, encerra o seu discurso de Paraninfo, dizendo:
 “Compreendo também, neste momento em que seguimos destinos tão diferentes, sem probabilidade de encontro, senão na Pátria comum, Vós, olhando para a frente, cheios de esperanças, de entusiasmo e de confiança no futuro, eu, colhendo os desenganos e voltando os olhos para trás, onde ficam as minhas alegrias, sim, compreendo que esperais de mim alguma coisa que se junte à bênção de despedida. Eu vos dou tudo isso porque tudo isso é o Brasil. Deus vos abençoe”.

No dia 8 de março de 1975 pronunciou um discurso em Homenagem à Mulher, no Centro Cívico Laudelino Freire, da Escola Técnica Federal, onde cita nomes de mulheres que venceram os tabus da sociedade machista e conseguiram vencer. Na praça Fausto Cardoso, como oradora oficial recepcionou a jovem tenente ex-expedicionária, Lenalda Campos, recém-chegada da Base Aérea Militar de Natal, onde prestara serviços durante a Segunda Grande Guerra. E começa assim o seu discurso:

“Mocidade de Sergipe, de pé!...
...de pé para saudar a Vida na plenitude do seu vigor e a nobreza dos seus ideais!...
Sergipe soldado, sentido!... É a Pátria que passa engastada no relicário sagrado do coração de uma jovem!... Sergipe herói, honra ao mérito!...
São as nobres tradições do civismo que perpetuam num exemplo dignificante de uma Mulher soldado!...
Mas, sobretudo, tu, ó Mulher Sergipana, orgulha-te!
Ela foi dizer ao mundo que a tua participação no teatro sangrento da luta não se restringiu a um sentimentalismo amorfo a uma contemplação à distância!... Lá estiveste presente, nos seus trabalhos, na sua dedicação, nos seus triunfos!... Conta-1hes, pois, que, mais cólera que os voos gigantes que ela conquistou para mais depressa levar conforto aos que sofriam, seguiam-na os teus pensamentos, em todas as operações de suas atividades: era a bênção das esposas que guiava; eram os anseios tímidos das noivas, que as bendiziam!”

E continuando o seu discurso poema, Leyda Regis diz, mais adiante:

“Como é imenso Sergipe, na grandeza de seus filhos!... Quanto entusiasmo, ao receber, hoje a primeira emissária dos seus triunfos, aquela que, abandonando as delícias do lar paterno voou por entre o ribombar dos canhões, o gargalhar das metralhas e todos os efeitos infernais das máquinas de guerra, para cumprir o mandato de amor ao próximo!... Sim, ela encarna realmente o Samaritano de que fala o Evangelho: – socorreu sem identificar; derramou o bálsamo suave da caridade e pagou a hospedagem em terra estranha com o ouro preciosíssimo do sacrifício...
Eu lhe beijo as mãos, mãos dadivosas que, quando nada mais tinham a dar a quem tinha dado tudo, pois empenhara a própria vida, apertaram as mãos geladas ou pousaram carinhosas, na fronte inundada do suor da morte, num gesto de infinita ternura como se quisessem comunicar o calor do coração de mãe ou carícia da esposa, distantes!
Eu lhe beijo as mãos solícitas que pensaram feridas, outras tantas bocas que se escancararam para cantar o Hino da Vitória e de onde, pelo esforço supremo de soar mais vibrante, jorrou o sangue generoso, que fertilizou esta terra de imortais!
Eu lhe beijo as mãos, mãos compassivas que, no derradeiro instante levaram aos lábios moribundos a imagem do Cristo Redentor, exortando a que, também como Ele, forte e resignadamente se imolasse por amor às outras criaturas.
E agora, Capela, prepara-te com festa que teus olhos jamais viram... Deixa que o sopro da aragem espaneje os teus vastos aposentos e o mobiliário riquíssimo da tua natureza! Estende as tapeçarias luxuosas da relva macia, matizada da policromia exuberante dos teus canteiros em flor! Acende os candelabros que pendem do estofado azul do seu céu! E depois, Capela, Princesa de Sergipe, cede a tua coroa a esta que é verdadeiramente tua filha, porque a recebeste no berço quente dos teus braços; porque a alimentaste com o pão substancial extraído das tuas entranhas, sobretudo, porque lhe comunicaste o sangue nobre dos teus sentimentos altruísticos e entroniza-a no altar do teu coração, pois Lenalda te imortalizou neste poema inédito, inspirado na bendita poesia do Amor com o estro sublime do Heroísmo!”
   
Outro discurso, proferido no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe está reproduzido na íntegra, no capítulo que retrata Cecinha Melo, quando da aposição do retrato daquela ilustre mulher nessa Casa de Cultura.
·                     Leyda Regis é sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Entre os vários títulos de que é portadora, destacamos: Diploma de Honra ao Mérito por relevantes serviços prestados ao ensino industrial, quando das comemorações dos 80 (oitenta) anos da Escola Técnica Federal de Sergipe.
·                     Medalha do Mérito “Nilo Peçanha”, também por serviços prestados ao ensino industrial. Na solenidade realizada no auditório Pedro Braz, após a leitura do “curriculum vitae” da homenageada, a professora Josefina Cardoso saudou-a, em nome do Ensino Técnico Federal.
Muito mais que o exposto nestas páginas realizou Leyda Regis nos seus oitenta e nove anos de vida profícua. Sua existência dedicada ao trabalho honesto, responsável, engrandece a mulher, servindo de modelo para a juventude e de justo orgulho para a sociedade sergipana.
Regra geral, as pessoas ligadas à área artístico-literária não se afinam com as chamadas Ciências Exatas. Leyda Regis é uma exceção, porque desenvolveu atividades nas duas áreas culturais. A Matemática nunca a intimidou e as Ciências Contábeis manobrou com competência. Fez do magistério o grande objetivo da sua vida, instruindo, educando, ajudando, aos mais fracos, tanto na aprendizagem, como economicamente. Ex-alunos extremamente pobres, a quem ela muito auxiliou, hoje, bem situados na vida, não esquecem a mestra-amiga que lhes abriu as portas para um mundo melhor. Como escritora, abrangeu todos os gêneros literários com clareza, objetividade e beleza estrutural, aliados à verdade, apanágio do seu caráter de mulher forte, porque cristã.
O texto a seguir reproduz uma parte do discurso da Professora Leyda Regis, proferido na Escola Técnica Federal de Sergipe, no dia 21/03/91, por ocasião da inauguração Pavilhão Didático, que recebeu o seu nome:

“Retrato, agora, com profunda tristeza, os instantes em que tomei conhecimento, através do decreto do Sr. Presidente da República, Dr. João Goulart, de 17 de outubro 1963, publicado no Diário Oficial da União, da minha aposentadoria por tempo integral no cargo de professor do Ensino Industrial Básico. Sufoquei o soluço que me amordaçou a garganta e, enfrentando, sem lágrimas, sem palavras que paralisaram a voz, estendi a mão a todos: Diretor, o meu dileto ex-aluno Humberto da Silva Moura, conhecido como o “filho” da Escola, porque o mais antigo e primeiro a frequentá-la; o Secretário, o prestimoso amigo Francisco Figueiredo, auxiliares diretos, inclusive, Bibliotecária, Professores de todas as Oficinas e de Cultura Geral, encarregadas da Cozinha e do Serviço de Limpeza e os queridos alunos, enviando-lhes um beijo com a mão espalmada, correspondido com o aceno comovido do “adeus” até nunca mais!...
Ao descer os degraus que ligavam o andar térreo ao superior, onde funcionavam as aulas de Cultura Geral, na Portaria, estavam o Porteiro e Serventes outros; apertei-lhes as mãos e, com os poucos passos que faziam chegar à porta de entrada, desci o batente alto até chegar na calçada; foi, então, que volvendo os olhos para trás, abracei, com eles, toda a estrutura do prédio; levantei o braço e acenei num gesto de despedida e deixei, finalmente, que do céu dos olhos em que se formou o nímbus da saudade, descesse a chuva de lágrimas que deslizaram livremente pela face, pois, àquela época, não ainda sulcavam as rugas que lhes desviassem o rumo ou as fizessem empoçar ao encontrá-las.
Estendo os braços alongados pela solidariedade afetiva a todos que conheci no desempenho da árdua, mas sublime missão de não me tornar omissa no cumprimento do dever. A vocês, Diretores, Colegas de todas as categorias e áreas de serviço, Alunos que me incentivaram a estudar para melhor transmitir, hoje: Sacerdotes, ensinando a lição sublime do “Amar a Deus e ao próximo como a si mesmo”; Médicos em suas variadas especialidades, suavizando ou curando os males do corpo; Advogados, defendendo o direito e a justiça; Engenheiros, construindo ou consertando edifícios públicos ou particulares; Agrônomos, preservando a Natureza; Biólogos, descobrindo o sentido da vida; Zootécnicos, indo em socorro dos animais indefesos, mas prestantes às necessidades do homem; Soldados de todas as armas, defendendo a Pátria; Professores, alongando e despertando conhecimentos úteis; Jornalistas, dando as notícias do dia a dia; Economistas, regulando os bens; Odontólogos, na conservação dos dentes que embelezam a boca e prestam auxílio à mastigação perfeita, para minorar o trabalho da digestão e Vocês, de mãos calosas, nas oficinas, construindo tudo que é necessário em trabalhos de madeira, ferro ou barro, bronze, mármore e mais outros elementos difíceis de precisar, para a construção dos aviões, rompendo e se equilibrando no ar, e os navios, sulcando os mares, as máquinas de guerra, não para destruir, mas para defender o patrimônio sagrado da Pátria!...
Tudo que descrevi e muito mais que não pude enumerar, para não me alongar neste descrever de utilidades que nos cercam, está em vocês, vencedores hoje, que ontem conheci e que, generosos, me procuram, reconhecidos, como se eu fosse a responsável de todos os sucessos alcançados!...
Aos que trabalham e estudam neste centro modelar de formação do amanhã, convido a volverem neste passado profícuo, meditando e contribuindo, juntos ao que ora dirige e aos que o sucederem, energia e apoio para enfrentarem os empecilhos que se amontoam no ideal de crescer, avançar para vencer! Diz a sabedoria: – A união faz a força! E, digo eu, força é o impulso que do pouco faz o muito!...
Prezado Auditório:
Perdoe o longo deste relato de uma vida em declínio. É que, como diz a quadrinha versificada:

Às vezes fico a pensar
Nos sonhos da meninice!...
Lembranças a povoar
A solidão da velhice!...

Agora, Sr. Diretor Prof. José Alberto Pereira Barreto, é a vez de testemunhar a minha gratidão profunda por tão benevolente e brilhante homenagem!
Conheci-o, com grande prazer da minha parte, em sua visita a nossa casa, levado pela curiosidade de conhecer, através de informações generosas, porque de amigos, a velha servidora da antiga Escola de Aprendizes Artífices; nesta oportunidade, na louvável iniciativa de revivê-la, pediu algo que pudesse perpetuar a história de seu funcionamento em proveito do ensino profissional. Dei-lhe tudo que sobrou do muito dar aos que me solicitaram.
Surpreendi-me, quando, em casa dos meus sobrinhos, em São Paulo, ouvi, caríssimo Diretor, sua voz comunicando-me a honra inestimável de haver escolhido, com o apoio dos que mourejam e aqui estudam, o meu nome para designar o Pavilhão Didático desta Escola. De pronto, confesso, atribuí que o prestante Diretor, zeloso em preservar o passado, na impossibilidade de homenagear a todos daquele tempo, reuniu, na velhice dos meus 87 anos, os que contribuíram para servir num passado distante!... Por isso, caríssimo Professor amigo, respondendo o “presente” da chamada evocativa da saudade, aqui estão, em mim, todos, sem qualquer exceção, dizendo o “obrigado” a que se rendem os corações agradecidos.
Assim, pois, quando alguém, estranhando a magnitude da homenagem, perguntar o “por quê” de meu nome ali estampado, digam-lhe, suplico, que é uma homenagem ao amor sentido e distribuído pelos que viveram o passado no “dever de função”, como bem definiu o meu prezado ex-aluno e depois colega Prof. José Heribaldo Teles de Menezes, definindo o que era o cumprimento do dever. Quanto a mim, tenho o coração transbordante de reconhecimento, rendido e plenamente repleto de gratidão!... Deus lhes pague com a abundância de Suas Graças o conforto e a alegria que proporcionam.”

E finalizando:

“Escola Técnica Federal de Sergipe!... eu te conheci de fraldas e pés descalços, nascida de um pai corajoso e empreendedor que, da união com as diretrizes do Decreto 956, de 23 de setembro de 1909, foste a “caçula” das filhas nascidas em cada Estado da Federação Brasileira. Acompanhei teu desenvolvimento, vestindo saia curta, depois vestido longo, até que, desposando o varão forte, destemido e desbravador do bem e do belo, chamado “Progresso”, e de ambos, de uma fecundidade prodigiosamente fértil, vieram filhos que enriquecem de sabedoria no presente, honrando as tradições de seguir, corajosamente, avante, sem esmorecimento, subindo os degraus que te levam a um futuro sem fim, enquanto eu, vergada ao peso dos anos, de mãos trêmulas ao frio da velhice, passos cambaleantes de cansaço no percurso da caminhada exaustiva por estradas pedregosas, colhendo uma ou outra flor desafiante dos empecilhos, para dar ânimo, vou descendo o caminho estreito e escorregadio que me precipitaria ao nada, não fosse a generosidade dos que tentam soerguer-me para eternizar-me no convívio desta Casa, onde vivi meus melhores anos, na nobre missão de conduzir jovens.
Muito obrigada.”
 Como a irmã, Cezartina, que foi o grande exemplo da sua vida, Leyda Regis dedicou-se também à evangelização dos prisioneiros. Ia visitá-los, aconselhá-los, levar-lhe a palavra de Cristo que a todos ama e tudo perdoa, desde que o arrependimento seja sincero e firme o propósito de emendar-se. Leyda Regis contou-me com lágrimas nos olhos e a voz embargada a sua despedida aos detentos da Penitenciária. “Acompanhados pelos soldados foram os presos levar-me até o portão. Um deles adiantou-se e disse: – Dona Regis, a senhora me permite apertar a sua mão? Ao portão todos acenavam, dizendo em coro: – Adeus D. Regis, adeus minha mãe”.
Toda uma vida doada à prática do bem, do amor a Deus e ao próximo. Assim é Leyda Regis, no seu maravilhoso ecletismo: simples, a vaidade não tem vez no seu “curriculum vitae”. A humildade é seu escudo, nela se refugia. E a sinceridade habita em seu coração.

Da editoria: Leyda Regis - faleceu em 09 de dezembro de 1998, na cidade de Aracaju, aos 94 anos de idade.