sexta-feira, 4 de maio de 2012

Nota dez para a escola.E para o avô?

No meu tempo iria para o quadro e escreveria 100 vezes “Não devo chamar nome feio” ou “Quero ser uma criança bem educada” ou coisa semelhante.

Leio no jornal (JC 26.04.2012-B-6) o desabafo do leitor e avô de uma criança de dez anos, lamentando o neto ter sido suspenso da escola porque ele “entre outras traquinices, proferiu a palavra “porra””. O avô, engenheiro, que colabora sempre com o jornal e escreve muito bem, entende que porra “é utilizada na prática por todas as camadas da sociedade, seu sentido imoral (imoral?), está plenamente absorvido no linguajar do povo, onde seu sentido é utilizado com várias finalidades”. Lá adiante no texto ele cita vários significados e colocação da palavra. Acredito que agora o neto dele vai poder dar mais uso ao termo em questão.
Ironias à parte, devo dizer que fiquei muito triste e lamentando a atitude do avô. Também sou avó e jamais me comportaria dessa forma. E por isso faço questão de dizer aos demais leitores que não acompanhem a atitude do avó que aceita (se presume) ser chamado de porra pelo neto. Você aceitaria? Ele apenas está chateado com o tamanho da pena e se revolta. Ele queria para o neto “aumento da carga horária para complementar suas deficiências específicas”. É compreensível. Mas para o futuro da criança, não é. Tudo começa com o nome grosseiro pronunciado, com um tapa e pior ainda, se houver o respaldo dos mais velhos.
No jornal Hoje - da Globo - hoje mesmo (26 de abril ) vejo matéria sobre o problema de alunos que fazem desfeitas, xingam e difamam  professores na internet (uma aceitou o pedido de desculpas da turma que prometeu não fazer mais isso - louvável da parte deles, os pais devem ter influenciado nessa atitude)... Sempre estamos a assistir professores que são maltratados verbalmente e fisicamente por alunos, e de professores que agridem alunos.
A conduta que deve se impor aos alunos é de respeito aos professores e aos seus colegas. Ninguém gosta de ser maltratado nem chamado de porra. Será que o neto disse porra para alguém com quem conversava e se referia a alguma coisa muito boa que ele achou “bom pra porra” dentro da teoria dos significados expostos pelo avó? Teria a escola dado suspensão por isso? Ou ele chamou alguém de porra com a intenção de ofender acompanhando “algumas traquinices”? Manda o bom senso que não se julgue estando longe dos fatos, mas pelo que lemos não foi explicada a situação porque a criança disse o tal nome. Talvez a escola tenha sido muito severa na penalidade. No meu tempo iria para o quadro e escreveria 100 vezes “Não devo chamar nome feio” ou “Quero ser uma criança bem educada” ou coisa semelhante. Mas hoje vemos que a educação sofreu mudanças que, infelizmente não estão ajudando a sociedade como um todo. Os colégios têm medo de punir os alunos, por caso como esses, os professores temem os alunos, e consequentemente a família dos alunos. Em colégios particulares ainda se estuda os casos, se chama aos pais, se dá suspensão etc. Em colégios públicos os professores vivem procurando outro rumo. Alguns que já passaram por vexames vivem a fugir das salas de aulas, outros abandonam a idéia do educar, cumprem apenas o horário e o tema da aula. Não se envolve com nada de alunos, pior corrigir atitudes erradas - é melhor fazer que não viu ou ouviu. E isso no Brasil todo. Diretores, coordenadores que pedem aos professores para deixar “fulaninho de lado porque é melhor, senão ele nos mata”. E a bandidagem toma conta do muro da escola, da quadra da escola, da porta da escola, depois... muito triste a expectativa.
Tivesse eu a oportunidade de ver aquela criança e diria a ela que pedisse desculpas a quem chamou de porra, que dissesse no colégio que não retornaria a fazer isso. Ensinaria que nomes grosseiros e chulos são usados por pessoas de poucas letras, sem educação de família e sem observação das etiquetas sociais. Perguntaria ao avô se diante de seus subordinados em uma obra ele chamaria alguém de porra, diria diante de uma platéia num evento, numa sala de aula, escreveria num discurso? Por que não? Essas são perguntas sem resposta diante dos significados dados na matéria, como desculpas. Os significados que o avô coloca no texto mais parecem conteúdo de caderno de piadas - que jamais seriam algo para ensino de qualquer escola, a não ser para se explicar sobre linguagem popular, do malandro de rua,  gírias, forma errada de falar, etc. Falar bobagens todo mundo fala, tudo depende da hora, como, onde e a quem. Não se ensina bobagens na escola, se diz para não falar essas bobagens - é diferente. Isso é dar educação.
Palavrão não é para se chamar dentro da escola. A escola está certa. Nota dez para ela.

Shirley Rocha-Jornalista