sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Regresso


Maria Lígia Madureira Pina


    O avião voava ainda muito alto... além das nuvens. Além das nuvens também para o mundo dos sonhos voava a sua alma... Sentado na poltrona estava o seu corpo, mas o espírito como que se libertara e pairava, agora, pelas plagas onde nascera. Era como se estivesse revendo a própria vida, num filme de longa metragem. Via-se, ainda criança, na Fazenda da família: ora nadando nas límpidas águas do riacho, ora correndo pelo campo, tangendo o gado manso... Os fins de semana na cidadezinha onde nascera... a missa aos domingos... muitas vezes fizera-se de coroinha, ajudando com prazer o velho pároco que o batizara e de quem recebera pela primeira vez a Eucaristia. Fora há tantos anos! E tudo ficara perdido na poeira do tempo. Mas, agora sua memória trazia tudo de volta, como se estivesse acontecendo naquele momento!... Depois, a mudança para a Capital e já rapaz, a convocação para o exército. Via-se jovem e garboso na farda verde-oliva. Foi por esse tempo que ela entrou na sua vida. Chegara numa manhã ensolarada de domingo... Era quase uma menina, mas com todo o encanto da mulher: delgada, olhos verdes, grandes, travessos, sorrindo sempre, mesmo quando os lábios não sorriam. E ela chegara para ficar... A mulher dos seus sonhos, dos seus anseios... Mas ele tomara gosto pelo militarismo e partira para Agulhas Negras. Recebeu espada, fez carreira. Fora exatamente há vinte anos... e pela primeira vez voltava à terra natal. Viera de uma missão na África e obtivera licença por seis meses. Resolvera voltar... Verdade que o pai já não existia... à mãe nunca conhecera: morrera quando ele nasceu. A tia que o criara, também já havia morrido. Talvez já não conhecesse muita gente. Vinte anos... Muitos teriam morrido, outros mudado do Estado... outros já nem se lembrariam dele. Mas havia ela... deveria estar linda, agora. Balzac dizia que a mulher é muito mais bela aos trinta anos e ela estava justamente nessa faixa etária. Alta, elegante, os grandes olhos verdes, sempre sorrindo. Vira há três anos um seu retrato, num grupo de amigos. Um colega lho mandara. É verdade que não se correspondiam há muitos anos... sempre anda¬ra em estágios, missões e relaxara a correspondência, mas nunca a esquecera. O amor continuava vivo em seu coração.
Agora o avião sobrevoava a cidade. A aeromoça já havia mandado apertar os cintos. Ele nem ouvira. Ela tocara em seu ombro e o despertara dos devaneios. Ele a olhou contrafeito. Ela explicou: já vamos aterrissar. Sua alma estremeceu... Enfim... logo iria revê-la. E de repente pensou: Meu Deus e se ela já não residir aqui? Não, não é possível... tem que residir... Mais tardar, no dia seguinte iria revê-la... tomá-la nos braços... beijá-la... desafogar num momento, um mundo de afeto contido durante vinte longos anos... Dizer-lhe que viera realizar o prometido... iriam se casar na Matriz da sua cidade, como haviam planejado há vinte anos.
O avião aterrissou. Estava ansioso. Foi largada a escada e ele desceu célere. Caminhou firme pela pista como o herói que volta da guerra vitorioso. Gente... muita gente que entra e que sai. De repente, seus olhos perscrutadores avistaram-na... era ela sim... Muito bela... os olhos verdes sempre sorrindo. E vinha em sua direção. Como adivinhara? Mas... não é possível, Senhor Deus... Não me viu... Quis gritar o seu nome, mas quando se voltou viu-a lançar-se nos braços de um homem grisalho que fizera toda a viagem ao seu lado. Seu coração disparou... soltou a valise... Os dois se beijavam o beijo que ele sonhara... Automaticamente olhou a mão esquerda da moça... lá estava a aliança que aos seus olhos tinha enormes proporções. Abraçados, atravessaram a pista. Ele ficou olhando... estático... Droga... Decepção... Desejou que o chão o tragasse.
    



Do livro “A Relíquia, contos e crônicas"