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| Rascunho de uma das cartas escritas por Maria Lígia Madureira Pina, para sua amiga Ofélia em Portugal |
30.03.1997
Querida Ofélia, saúde e paz
Feliz Páscoa
Hoje fui despertada pelo som de um vizinho tocando Lisboa
Antiga. A seguir Mouraria, Coimbra e outros. Deu-me uma imensa saudade de
Portugal e de você. Revi mentalmente Lisboa e outros locais que percorremos
juntas. Não contente em relembrá-los de memória coloquei as gravações no vídeo
e revi tudo. Coimbra, Fátima, Lisboa; o rio Tejo, a Torre de Belém, Sintra, o
Mosteiro dos Jerônimos, o Monumento às Navegações, a Fortaleza de São Jorge,
tudo enfim, que tive o ensejo de conhecer. Sinto muita vontade de retornar a
Portugal e conhecer Porto, Alcobaça, Braga Guimarães e a região do Minho do
Douro. Quem me dera! Mas não vejo atualmente nenhuma oportunidade porque
sozinha não mais viajarei e as minha colegas já conhecem Portugal e não sentem
o interesse de voltar, como eu. Dos países que conheci gostaria de retornar a Israel
e Portugal. Entrego o meu desejo nas mãos de Deus. Como gostaria de tê-la
comigo aqui no Brasil.
Recebi a sua carta de 12 de março em curso, e me inteirei de
suas notícias, o que para mim é motivo de contentamento, excluindo as notícias
tristes das quais me torno solidária. Concordo com a acepção do Senhor Arcebispo,
seu amigo, sobre “só haver cruzes à sua
volta”. Assim também o sinto. Desde a mais tenra idade o espectro da morte me
persegue. Até certa vez, em 1968, escrevi um poema sobre o assunto. Mas...
estamos sobrevivendo. Demos graças a Deus e aproveitemos da melhor maneira os
tempos que nos restam. Façamos amizades novas com gente mais jovem que tenham a
possibilidade de nos sobreviver. Criemos laços familiares pelo afeto e a vida
nos será menos amarga;
Como passou a semana de Páscoa? Compareceu aos atos
litúrgicos? Eu acompanhei a programação dos padres Salesianos na Igreja de
Nossa Senhora Auxiliadora, bem perto da minha residência. O Padre Paulo tem o
dom especial de realizar estes atos. Na 4ª feira dirigiu a Confissão
Comunitária, na 5ª Lava-pés e a instituição da
Eucaristia, na 6ª a Paixão de Jesus. E ontem, maravilha! A Benção do Fogo,
cenário para cinema. As luzes elétricas foram apagadas. O grande Círio aceso e
toda a assembleia com velas acesas. A cerimônia foi realizada na quadra de
esportes do Colégio anexo, porque a Igreja não comportaria o número de fiéis.
Depois o Canto de Moisés, a benção da água e o batizado de seis moças que
quiseram se tornar cristãs. Em seguida a Missa. Foram três horas e meia de
orações. Toda a assembleia entoando salmos e hinos. Lindo! Só a Igreja Católica
tem ritual tão belo.
No dia 22 compareci ao casamento da neta de uma prima numa
Igreja Evangélica. O casamento foi simples, mas bonito. A noiva feliz no seu
traje branco. No dia seguinte fui ao solene casamento da filha da minha
companheira de Academia e do MAC, Cléa Brandão. A noiva tem o sugestivo nome de
Rosecler. Ela estava radiante e deslumbrante no traje nupcial, bordado com
pérolas, em estilo antigo com cauda e véu cobrindo o rosto. A cerimônia foi
muito bonita. Muitas luzes e músicas. Foi entoado o Canto Nupcial judeu baseado
no Cântico dos Cânticos.
Hoje seria a reunião da Academia Literária de Vida, na casa
de Conceição. Foi transferida para o próximo domingo, porque hoje é o
aniversário de uma sua neta Daniela, que completa 13 anos.
Neste mês de março foram publicadas as revistas da Academia
Sergipana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, ambas
muito boas. Na Academia de Letras foi publicado um artigo de minha autoria
sobre o representante máximo da poesia sergipana Hermes Fontes que viveu de
1888 a 1930. Além de poeta, foi cronista, ensaísta, dramaturgo, jornalista e
caricaturista. Como poeta é um neo-simbolista, ligado às coisas da terra e da
natureza. Alguns críticos o consideram pré-modernista. De Hermes Fontes para o
seu deleite:
LIÇÃO DE COISAS
Sabedoria ingênua
daquele passarinho
Não quer nada,
não tem nada,
- tem o céu...
Enquanto vivo, inspira-se e
revela-se:
abre as asas no espaço, e
mostra o corpo:
abre a voz no gorjeio, e
mostra o espirito...
Só ao morrer, o passarinho,
talvez para esconder invisíveis
galés,
todo se fecha num pudor humílimo,
junta as asas no corpo e encolhe os pés...
....................................................
PS:- Não sei como ela terminou a carta. Não tem no rascunho. Mas deixo aqui como uma mensagem de Feliz Páscoa !
Foto da web |
- - Porque buscais entre os mortos o que vive? Não está aqui. Ressuscitou!", |
Editado por Shirley Rocha

