quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A Dádiva

De: Maria Lígia Madureira Pina

R
aquel vivia só, em uma bela casinha de canteiros floridos à margem do Lago do Sol. Ali, os jasmineiros, as roseiras, e as begônias floriam, ao contato carinhoso de suas mãos. Às plantas ela chamava de “minhas     filhas” e lhes dedicava um grande amor.
Os amigos, os colegas, os vizinhos de Raquel admiravam-se de que ela não houvesse se casado. Fora bonita; de uma beleza singela, mas fora bela. O retrato a óleo, na parede da sala, assim o afirmava. O artista soubera captar a pureza do seu sorriso; sorriso que ia além dos lábios. Raquel sorria com os olhos, com a alma. Um admirador um dia lhe dissera: “tens o sorriso da Mona Lisa”. Os colegas comentavam que de certo, fora muito exigente, sonhara com um Príncipe Encantado. Raquel sorria docemente e explicava: Foi apenas falta de oportunida­de. Mas o que Raquel não dizia era que se resguardara à espera de um grande amor: um homem belo de alma e de corpo que a amaria intensamente e a levaria para longe de Jarão e lhe daria os filhos que almejava.
Raquel dá volta à chave de suas lembranças... Perscrutemos a sua alma e desvendemos o seu mistério...

Era uma bela tarde de maio. Raquel, adolescente ainda, passea­va com uma amiga na praça, onde se realizava uma “retreta”, quando surgiu um moço, belo como o sol, e lhe sorriu e lhe falou de simpatia, afinidade, amor à primeira vista. Começou aí o seu romance e a lon­ga estrada que conduziu a sua vida para o Castelo da Solidão.
Emanuel passou a encontrá-la todos os dias. Passeavam, iam ao cinema, trocavam palavras de afeto e quando as suas mãos se encontravam, sinos repicavam festivos em suas almas, mil estrelas cin­tilavam em seus corações.
Raquel floria em seus 15 anos e Emanuel já contava 23. Os dois eram felizes, vivendo a expectativa do grande encontro que se reali­zaria dentro de dois anos: casar-se-iam e a integração seria comple­ta – alma e corpo unidos na mais perfeita união – o Amor. Depois viriam os filhos, projeções de si mesmos, espelhos de suas almas, continuações de suas vidas. E assim viviam, em “tempo de espera”, sonhando, edificando o seu Castelo de Felicidade. Mas o Destino tra­mava na sombra os seus desígnios...
Emanuel era militar. Um dia, triste dia... ele recebeu ordens de partir. Deveria completar o seu curso de oficial numa Academia Mili­tar, numa metrópole distante, muito distante de Jarão. Ambos chora­ram amargamente a dor da despedida. Pela primeira vez os seus lábios se uniram num longo beijo. Emanuel jurou que voltaria para buscá-la, tão logo terminasse o seu tempo de caserna. E o amor continuou através do tempo e do espaço. Seus corpos estavam separados, mas suas almas continuavam unidas, acesas na mesma chama de amor. E havia as cartas, escritas diariamente, testemunho solene do afeto que um ao outro tributava. Mas um dia... triste dia... amargo dia, na vida de Raquel!... Um dia as cartas cessaram de chegar. Um mês, dois, três, quatro, cinco, seis... Raquel desesperava-se. Teria Emanuel esqueci­do o juramento? Estaria amando a outra mulher? Estaria casado?...Não, não era possível. Não podia acreditar... O seu cálice de amargura transbordava, sua alma contorcia-se até a morte.
Já eram passados seis meses quando um primo de Raquel teve de ir a Serra Mar, a grande metrópole onde residia Emanuel. Prome­teu à prima que escreveria imediatamente, mas não teve coragem; deixou para dar-lhe a notícia pessoalmente, com cuidado para não ferir de morte aquela alma frágil. Ao voltar, Pedro lhe contou a trági­ca verdade. No último dia de treinamento militar Emanuel foi mor­talmente ferido por uma granada e morreu no Hospital, com um sorriso nos lábios, balbuciando o nome da sua amada. Pedro entregou-lhe um pacote contendo as cartas que ela escrevera e a última dele, que não chegara a postar, na qual a cientificava que dentro de poucos dias estaria novamente ao seu lado.
A dor silenciosa de Raquel é indescritível. Reprimia as lágri­mas até o desespero para não alarmar os pais que não sabiam do seu amor. O primo Pedro e a tia Antônia foram o seu ponto de apoio. Era nos seus ombros amigos que Raquel fluía a sua dor.
A moça passou a viver como um autômato. Pálida, magra, alimentando-se mal, peregrinava pelos consultórios médicos, levada pelos pais. Mas a medicina era impotente para curar o seu mal. As colegas do Colégio passaram a chamá-la “a Viuvinha”, lembrando-se do romance de Alencar. Raquel perdera o gosto pela vida. Vestia cores sombrias, contrastando com a sua juventude física, porque es­pírito, envelhecera um século. A dor marcara a sua alma “a ferro em brasa” e as chagas sangravam, abundantemente.

Um ano se passou... Raquel ia concluir o Curso Pedagógico e mudou o ritmo de sua vida. Passou a freqüentar as sorveterias, os cinemas e até “os assustados”, os bailes que se realizavam semanal­mente em casas de famílias, como prévias para o grande baile de for­matura. Dançava com os amigos, tocava e cantava, embora músicas românticas. Já não a chamavam “a viuvinha” e sim, “a viúva alegre”. Dentro de sua alma, porém, Raquel chorava o seu sonho de amor prematuramente desfeito. Nunca o seu coração se inclinou para ou­tro homem. Sua felicidade consistia em trancar-se no quarto e reler as velhas cartas, amareladas pelo tempo que também marcava a sua passagem pelo seu rosto. Raquel era uma flor que feneceu ainda em botão. Morreram os seus sonhos de amor, a mulher morreu dentro do seu ser; nada dela restou. Dedicou-se ao trabalho e esqueceu a vida em suas multivariedades...

Morreram os seus pais e multiplicou-se por mil o peso da sua solidão. Ela que sonhara com uma família, muitos filhos correndo, cavalgando ao lado do marido na fazenda do Sol, em Terra Mar, es­tava só. Ninguém para amá-la, ninguém para amenizar a sua amar­gura. Uma noite, insone, Raquel abriu o seu relicário de lembranças e se pôs a reler as cartas do amado. Lágrimas ardentes caíam sobre o papel e sobre as rosas murchas, despetaladas, antigas dádivas, men­sageiras do amor. Raquel lia e chorava e clamava contra o destino cruel que a deixara desamparada. De repente, ouviu, no silêncio da noite, a voz do vento e nela, a voz do seu amado: “de hoje em diante, já não estarás sozinha. O céu te agraciou. Um filho te será dado”. E como prolongamento dos seus soluços, Raquel ouviu embaixo da sua janela um estranho vagido. Lá estava um recém-nascido loiro e belo como o sol, envolto em panos. Ela o tomou nos braços e o chamou Emanuel.
                                                                  zzz