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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

“EU ENSINEI...”



 NOSSA HOMENAGEM AOS 

PROFESSORES DO BRASIL! 



Cléa Maria Brandão

 

Eu ensinei na escola secundária por 25 anos.

Durante aquele tempo eu passava tarefas e ditava normas. Tinha diante de mim, entre outros alunos, políticos, drogados, sacerdotes, professores, missionários, cientistas, juristas, militares, comerciantes, artistas, e alguns tipos indefinidos.

            Os Políticos, logo se distinguiam: loquazes, discursivos, inteligentes, combativos. Lideravam quaisquer movimentos eleitorais na escola. Eram os presidentes do Grêmio. Monopolizavam as discussões nas aulas. Hoje são Bacharéis em Direito e ocupam cargos eletivos nas Câmaras Públicas.

            Os Drogados – sem consciência da própria situação eram tardos em compreender o que lhes era ensinado. Sentavam-se sempre nos fundos das salas procurando sombras. Escreviam poesias de protesto, visto que o mundo estava contra eles. Muito carinhosos, e ainda hoje quando os encontro é uma alegria. São pais de família preocupados com a questão do tráfico de drogas nas escolas.

            Os Sacerdotes- circunspectos, sempre discutindo teologia com a professora evangélica. Aparentavam amadurecimento e se preocupavam com os colegas “excluídos”. Espero vê-los sagrados de Bispos e Cardeais.

            Os Professores-logo eram monitores e auxiliares. Quando os

 encontros agradecem à professora pela influência exercida na escolha da profissão. Estão hoje entre desiludidos, conformados e por vezes, entusiasmados.    Os Missionários- portavam sempre uma Bíblia. Eram os mais populares e lideravam os jogos estudantis. Sonhavam ser missionários junto a grupos étnicos distantes. Alguns conseguiram.

            Os Cientistas – estão em todos os hospitais e consultórios como médicos, odontólogos, enfermeiros, etc. Acudiam os acidentados no recreio. A Ciência era seus sonhos. É confortante encontra-los nas ocasiões oportunas.

            Os Juristas -sempre consultando o regimento escolar para defender seus direitos. Eram os da lei. Exigiam as melhores notas para si mesmos. Estão aí cumprindo esse mesmo papel. É uma honra encontra-los de terno e gravata nos Fóruns.

            Os Militares- disciplinados, não apreciavam a “cola”. Corretos, impediam os embates dos desafetos. Protegiam-me.

Os Comerciantes- tipos característicos. Eram capazes de vender o lanche. Implicavam com os preços na cantina. Não dados aos estudos e ao cumprimento de tarefas. É gratificante encontra-los bem sucedidos nos negócios, inclusive como feirantes no mercado central. Fazem questão de apresentar aos companheiros a sua professora.

Os Artistas- inquietos, simpáticos, quase sempre filósofos. Poetas, cantores, instrumentalistas. Faltavam às aulas com boas desculpas: peças de teatro a ensaiar, músicas a vocalizar, instrumentos a afinar, etc...Muito alegres. Continuam artistas e felizes.

Os Tipos Indefinidos- surpreendentes, aqueles que fugiam a qualquer previsão. Há alguns que até ocupam altas posições, inclusive na diplomacia internacional.

Ah! Havia os presidiários que assistiam aulas vigiados por guardas, postados no pátio da escola. Nem cheguei a identifica-los. Eram tão bem humorados e ávidos em aprender. Voltaram à cadeia e não sei mais deles. Apresentavam excelente comportamento nas aulas.

Todos esses alunos estiveram um dia diante de mim, sentados em suas carteiras. E entre interessados e debochados, testavam a minha sapiência e a minha paciência.

E foram tantos...por 25 anos. Eu creio tê-los ajudado...

Discutíamos as influências da Revolução Francesa na História. Mas o que realmente eu gostaria é ter a certeza de ter-lhes inculcado na mente o verdadeiro significado das palavras: Liberdade-Igualdade-Fraternidade.

Dirijo-me agora à mesa, e a esta querida assistência onde vejo amigos, colegas, companheiros-professores que um dia me tiveram como aluna. Amados do coração. Diz a Palavra de Deus em Eclesiastes 11:1: “lança o teu pão sobre as águas porque depois de alguns o acharás”. Aos novos colegas que começam a vida no magistério (inclusive a minha filha), a mensagem do Apóstolo Paulo, quando nos diz que devemos “gastar-nos e deixar-nos gastar” e que deve haver dedicação ao ensino”.

 Vai-me alta esta honorabilidade. Agradeço a minha eterna mestra e amiga Lígia Pina pelas palavras a mim dirigidas nesta hora, visto que quando estive sob sua cátedra, no então Colégio Nossa Senhor de Lourdes, não imaginávamos  viver tal momento.  Ao  querido Presidente deste Sindicato, Professor Manuel Muniz, e as queridas amigas Professoras Yvone Mendonça, Marlene Montalvão e demais componentes da Diretoria, o meu agradecimento pelo tanto que sabem dividir carinho e amor aos professores que aqui frequentam.

A vida é cheia de ritos. E este é mais um rito porque passo

O título é significativo e credito à generosidade destes companheiros. Diz um provérbio francês: “Celui qui a planté um arbre, n’as pas vecu inutile”. E por falar em árvore permitam-me relatar uma parábola que se encontra no Livro Sagrado, Juízes Cap 9-A parábola de Jotão.

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Minha oração nesta hora e que se disponham figueiras, videiras e oliveiras, para que quando procuradas sirvam de sombra às pequenas árvores, evitando que as mesmas procuram abrigo sob os espinheiros que nada têm a oferecer.

Que a aridez dos desertos, a falta de amor, de reconhecimento dos bons valores sejam combatidos pelo professor no melhor lugar: em sua sala de aula.

Obrigada.

 

Discurso pronunciado quando do recebimento do título “Educador do Ano” – Sindicato dos Professores da Rede Particular do Ensino – em comemoração ao Dia do Professor em 17.10.1998.

   



 Cléa Maria Brandão – nossa confreira ocupa a cadeira n. 5, cuja patrona é Maria da Conceição Melo Costa - foi docente em vários colégios de Aracaju: Colégio Tiradentes, Colégio do Salvador, Colégio Visão, Colégio Municipal Presidente Vargas, Colégio Estadual Costa e Silva e Colégio de Aplicação da UFS.