Foi lançado na última sexta-feira, dia 01 de março, no hall da sede do Clube dos Diretores Lojistas (CDL), o livro de poesias “Rancho das Gaivotas” de Avany Torres de Souza, numa alegre noite lítero - musical. Parentes, amigos e admiradores da arte do verso foram prestigiar a mais nova poetisa da praça. Participei da apreensão da amiga (ela ciente do seu valor, mas reticente) em colocar-se entre os grandes poetas da cidade. As pessoas de verdadeiro valor são modestas, humildes em descortinar suas qualidades e sabem conter a vaidade, a promoção pessoal.
No preâmbulo do livro ela explica que sua poesia é feita obedecendo mais a métrica que a rima, como se isso fosse a parte mais fácil. Que o digam, os grandes poetas. Sabemos que no século XIX é que surgiu o romance e daí o refinamento da expressão poética que depois se firma como linguagem autônoma, com sentimento e forma. Só algumas frases bonitas, não quer dizer que sejam poesias. É necessário o conjunto. A emoção sobrepõe à razão e a intuição traz a criação. E Avany sabe reunir - los muito bem. É uma poeta rica - em sentimento, palavra e forma.
Leio um trecho assim que abro o livro: ...“João: Você é o sapateiro que vai além dos sapatos. Você nasceu poeta”. Ela está homenageando com “Preito de Louvor” o poeta laranjeirense João Silva Franco. Bonito gesto! Ele é mais conhecido por João Sapateiro e hoje, já não escreve poemas nem conserta sapatos, com 83 anos, o glaucoma tirou-lhe a visão. É assim que apresento a poetisa que nasceu na Ilha de Santa Luzia, filha de João Teles de Souza e de Maria Gertrudes Torres de Souza, juntamente com duas irmãs, Iara e Yucema e um irmão Abarê. Formada em Direito pela Universidade Federal de Sergipe, trabalhou nos Correios e Telégrafo, trabalhou na Procuradoria da Prefeitura Municipal de Aracaju de onde se aposentou. Amante também da boa música - frequentadora assídua do Grupo de Seresta do Professor Argolo - é dona de bela voz e a linguagem poética de Avany é bela quando descreve sua inspiração. Assim como diz Petrônio Gomes nas orelhas do livro: “Avany brinca com as palavras, pinta quadros, reclama e aplaude, tudo em versos”. É uma tela realmente, com cores, luzes, horizontes e até sons, se isso é possível. Seu sentimento é forte nos versos de paixão, tristeza, alegria, indignação, vitória e saudade, como na:
Velha Fonte - E o lenço guarnecido de renda,/ flutua na águas turvas da fonte/ entre musgos e folhas mortas. /-Movem-se como braços,/ como traços ondulantes, /iniciais de um nome/ bordadas ponto a ponto./ Guardo comigo a indagação suposta/de abandono (...); é também magnífico quando canta a natureza/ o amor/ a infância: Retrospecto: (...) Eram simples e tranqüilas/ as nossas tardes antigas./ Empinando “papagaio”,/ fazendo casa na areia, assando castanhas secas/ à sombra da amendoeira/ e o teco-teco das bolas/ de gude, num vai e vem/ resvalando nos buracos/ feitos com o calcanhar./ Canção de roda, mãos dadas,/ correria nas calçadas,/ jogo de bola e botão./ E a vida passa ligeiro./ Da infância, canta a alegria./ Da velhice, conta as horas./ É a ciranda do tempo/ é o tempo tecendo estórias”. (Gosto muito disso, pois me traz lembranças!); é amargo nas perdas/injustiças/indignação: A Esfinge: Era o silêncio/ que estava em ti/ quando chegaste./ Mãos paralelas/ junto ao corpo magro,/ sorriso enganador,/ incoerente, vago,/ esfinge indecifrável./ Olhar inquiridor/ profundo, acusador,/ como se eu te devesse tudo/ e nada te pagasse./ Resta a escultura cinza/ da lembrança exata./ Se pesadelo ou sonho,/ que nada mais restasse./ Nem marcas no invisível/ mundo meu/ por onde andaste”. (Quem seria aquela esfinge?) Já a indiferença vem sutilmente em Perdoa-me: Conheço o teu andar./ O cálculo do gesto,/ maneiras e manias/ e te conservo imóvel/ entre o passado breve/ e a mais longínqua/ das distâncias frias”.(...) Teu bem que me convence/ e tanto me enternece/ é o piedoso bem que sinto/ e não mereces.”
Da poesia Novo Canto ela fez nascer o título do livro: Clara manhã dos colibris/a espanejar beleza/ ao debater das asas./ Canto as canções das andorinhas/ procurando os ninhos./ Das graças brancas/ saltitantes, assustadas/ Das gaivotas marinhas/ aconchegadas ao rancho/ sossego ao cair da tarde (...)
Já disse o grande poeta Rubem Braga: “A poesia é necessária!”. A poesia explora a verdade, ultrapassa o silogismo - é a forma mais elaborada de uma língua - ela nasce das profundezas de nossa consciência. Saudemos a nova poetisa com seus próprios versos: “Pesado fardo esse receio/ que aos termos do silêncio/ me conduz aflita./ E assim, desisto/ da experiência/ de lutar comigo./ O pânico acovarda/ e anula a ideia./ O raciocínio é tardo/ e a inteligência, cega. (...) Na paz do verso,/ canto, louvo e enxugo o pranto,/ enquanto a vida flui/ desassombradamente (de Paz do Meu Verso).
Avany, minha amiga - foi um prazer digitar e editar seu livro.
Shirley Maria Santana Rocha - 03.03.2003.
Título: Rancho das Gaivotas
Prefácio: Santo Souza
Orelhas: Petrônio Gomes
Gráfica e Editora Triunfo -168p.