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05 de outubro de 1988- Congresso Nacional |
Lígia Pina
Dezessete meses de renhidas batalhas marcaram a elaboração da nova Carta Magna Brasileira, promulgada, finalmente, em solene ato cívico, na presença de autoridades nacionais e estrangeiras e de restrito público que obteve a mercê de um convite.
Claro que seria impossível a presença física de todo o povo brasileiro, mesmo que a solenidade fosse realizada no maior estádio do mundo. Mas, graças ao milagre do século - a TV- o povo esteve presente no majestoso ato cívico. Se os que partiram desta vida têm a oportunidade de voltar à Terra, em espírito, estavam também presentes Tancredo Neves - o idealizador da nova democracia brasileira - Virgílio Távora, Teotônio Vilela e tantos outros que fizeram da palavra a arma com a qual lutaram para trazer de novo ao Brasil a chama da liberdade.
Foram mais de 20 anos negros, de trevas, de sofrimento e indecisões... Passados 20 anos a consciência nacional despertou, o gigante saiu do letargo que o mantinha inerte. O povo vibrou nas praças em memorável campanha cívica, liderada por Tancredo Neves e Ulysses Guimarães. Enchiam-se de entusiasmo, de nova esperança os corações dos brasileiros, pulsando uníssonos nos comícios, ao som do Hino Nacional. A juventude vibrava ouvindo o Hino, envolvida na grande Bandeira Nacional que os acompanhou em todas as concentrações cívicas. Veio a eleição - embora indireta. Tancredo Neves é eleito. Festas, risos em todos os rostos, alegria banhando a alma brasileira. De repente, a longa noite de agonia e depressão. O calvário e a morte do presidente antes de tomar posse do governo. O povo chora nas ruas... acompanha com lágrimas e aplausos o corpo do pai da democracia à sua última morada. Parecia estar morta também a esperança do povo brasileiro. Engano de quem assim pensou: a esperança no coração do brasileiro é como a Fênix da mitologia grega – renasce das próprias cinzas. O povo transfere as suas esperanças para o vice-presidente que assumia os destinos do País. Se ele havia co-participado da campanha deveria estar apto a cumprir as promessas que junto fizera com Tancredo.
O povo esperava mudanças que trouxessem melhores condições de vida aos trabalhadores, aos pobres, sufocados pelo alto custo de vida. E lhes fora prometido que “nenhum sacrifício lhes seria mais exigido”... Surpresa geral: o governo lança o Plano Cruzado. Quanta euforia! As mulheres se tornam, de repente, “as fiscais do Sarney”. Pouco durou... alegria de pobre dura pouco, mesmo. Veio o “Plano Cruzado 2” para tristeza e desespero de todos. A inflação assumiu proporções nunca dantes conhecida na História do País. E continua crescendo, não mais dia a dia, mas segundo a segundo. O povo está decepcionado. Mas...há a Constituinte. A esperança volta, porém, como uma gangorra:ora no alto, ora no chão.Lentamente, à custa de muito trabalho das lideranças constituintes e do cerco e pressões das entidades de classes, das minorias sofridas e injustiçadas e do esforço do presidente da Constituinte Ulysses Guimarães, aí está a nova Constituição - a oitava do Brasil.
Se por um lado, desagrada aos conservadores e por outro aos progressistas de extrema, pelo menos é a mais liberal que os mais bem intencionados conseguiram realizar. Cada autor de emenda que veio a beneficiar o povo terá o seu nome imortalizado pelo ardor patriótico, conclamando os constituintes faltosos a cumprir o dever, ameaçando puni-los, concitando o comparecimento de todos, nos momentos cruciais, suplicando até em nome de Deus. O homem que deu o maior exemplo cívico, sentando nove mil horas na cadeira da presidência- segundo seu próprio depoimento - a tudo sacrificando pelo amor à Nação.
Cinco de outubro de 1988 é o novo dia da liberdade para o Brasil. Às 15h35min o Dr. Ulysses Guimarães, presidente da Constituinte, declarou promulgada a Constituição. Fogos espocam nos ares, sinos badalam festivos nas igrejas. Á frente do Congresso Nacional a emoção domina o povo. No interior do Congresso, discursos efusivos, aplausos. O Dr. Ulysses assina a Magna Carta com a caneta que lhe foi ofertada pelos funcionários do Congresso, como há um século, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea com a caneta de ouro oferecida pelo povo brasileiro.
Havemos uma nova Constituição. Os direitos mínimos do povo devem estar assegurados. Que ninguém tenha receio de exigi-los e todos estejam alertas, durante a elaboração das leis complementares.
Havemos Constituição... O brasileiro “profissão esperança” espera que ela seja realmente cumprida “para alegria de todos e felicidade geral da Nação”.
Publicado no Jornal ATARDE, segunda-feira, 24 de outubro de 1988.