Translate

domingo, 5 de abril de 2026

CARTA PARA OFÉLIA - PORTUGAL


Rascunho de uma  das cartas escritas por Maria Lígia Madureira Pina, para sua amiga Ofélia em Portugal

 30.03.1997

Querida Ofélia, saúde e paz

 Feliz Páscoa


    Hoje fui despertada pelo som de um vizinho tocando Lisboa Antiga. A seguir Mouraria, Coimbra e outros. Deu-me uma imensa saudade de Portugal e de você. Revi mentalmente Lisboa e outros locais que percorremos juntas. Não contente em relembrá-los de memória coloquei as gravações no vídeo e revi tudo. Coimbra, Fátima, Lisboa; o rio Tejo, a Torre de Belém, Sintra, o Mosteiro dos Jerônimos, o Monumento às Navegações, a Fortaleza de São Jorge, tudo enfim, que tive o ensejo de conhecer. Sinto muita vontade de retornar a Portugal e conhecer Porto, Alcobaça, Braga Guimarães e a região do Minho do Douro. Quem me dera! Mas não vejo atualmente nenhuma oportunidade porque sozinha não mais viajarei e as minha colegas já conhecem Portugal e não sentem o interesse de voltar, como eu. Dos países que conheci gostaria de retornar a Israel e Portugal. Entrego o meu desejo nas mãos de Deus. Como gostaria de tê-la comigo aqui no Brasil.

    Recebi a sua carta de 12 de março em curso, e me inteirei de suas notícias, o que para mim é motivo de contentamento, excluindo as notícias tristes das quais me torno solidária. Concordo com a acepção do Senhor Arcebispo, seu amigo, sobre  “só haver cruzes à sua volta”. Assim também o sinto. Desde a mais tenra idade o espectro da morte me persegue. Até certa vez, em 1968, escrevi um poema sobre o assunto. Mas... estamos sobrevivendo. Demos graças a Deus e aproveitemos da melhor maneira os tempos que nos restam. Façamos amizades novas com gente mais jovem que tenham a possibilidade de nos sobreviver. Criemos laços familiares pelo afeto e a vida nos será menos amarga;

    Como passou a semana de Páscoa? Compareceu aos atos litúrgicos? Eu acompanhei a programação dos padres Salesianos na Igreja de Nossa Senhora Auxiliadora, bem perto da minha residência. O Padre Paulo tem o dom especial de realizar estes atos. Na 4ª feira dirigiu a Confissão Comunitária, na 5ª Lava-pés e a instituição da Eucaristia, na 6ª a Paixão de Jesus. E ontem, maravilha! A Benção do Fogo, cenário para cinema. As luzes elétricas foram apagadas. O grande Círio aceso e toda a assembleia com velas acesas. A cerimônia foi realizada na quadra de esportes do Colégio anexo, porque a Igreja não comportaria o número de fiéis. Depois o Canto de Moisés, a benção da água e o batizado de seis moças que quiseram se tornar cristãs. Em seguida a Missa. Foram três horas e meia de orações. Toda a assembleia entoando salmos e hinos. Lindo! Só a Igreja Católica tem ritual tão belo.

    No dia 22 compareci ao casamento da neta de uma prima numa Igreja Evangélica. O casamento foi simples, mas bonito. A noiva feliz no seu traje branco. No dia seguinte fui ao solene casamento da filha da minha companheira de Academia e do MAC, Cléa Brandão. A noiva tem o sugestivo nome de Rosecler. Ela estava radiante e deslumbrante no traje nupcial, bordado com pérolas, em estilo antigo com cauda e véu cobrindo o rosto. A cerimônia foi muito bonita. Muitas luzes e músicas. Foi entoado o Canto Nupcial judeu baseado no Cântico dos Cânticos.

    Hoje seria a reunião da Academia Literária de Vida, na casa de Conceição. Foi transferida para o próximo domingo, porque hoje é o aniversário de uma sua neta Daniela, que completa 13 anos.

    Neste mês de março foram publicadas as revistas da Academia Sergipana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, ambas muito boas. Na Academia de Letras foi publicado um artigo de minha autoria sobre o representante máximo da poesia sergipana Hermes Fontes que viveu de 1888 a 1930. Além de poeta, foi cronista, ensaísta, dramaturgo, jornalista e caricaturista. Como poeta é um neo-simbolista, ligado às coisas da terra e da natureza. Alguns críticos o consideram pré-modernista. De Hermes Fontes para o seu deleite:

LIÇÃO DE COISAS

Sabedoria ingênua

daquele passarinho

Não quer nada,

não tem nada,

- tem o céu...

Enquanto vivo, inspira-se e revela-se:

abre as asas no espaço, e mostra o corpo:

abre a voz no gorjeio, e mostra o espirito...

Só ao morrer, o passarinho,

talvez para esconder invisíveis galés,

todo se fecha num pudor humílimo,

junta as asas no corpo e encolhe os pés...

 ....................................................

PS:- Não sei como ela terminou a carta. Não tem no rascunho. Mas deixo aqui como uma mensagem de Feliz Páscoa ! 


 
Foto da web

- - Porque buscais entre os mortos o que vive? Não está aqui. Ressuscitou!",



Editado por Shirley Rocha